Direito de morrer

 

A bola rolou macia e o garoto soltou o pé. No ângulo! Gol. Ele saiu correndo para cumprimentar o irmão mais novo pelo passe.

- Eu sabia que você ia dar esse passe! - Abraçaram-se.

Haviam ganhado a pelada contra a turma da rua de cima; usariam o campinho de futebol por um mês sem serem enxotados.

De noite, em suas camas, Saulo, o mais velho, perguntou:

- O que você faria se não pudesse mais jogar futebol?

- Vou jogar futebol para sempre! - Respondeu Mauro, o mais novo.

- Mas e se ficasse doente? - Insistiu o mais velho.

- Jogo no gol! - Troçou o mais novo. Saulo também achou graça. Riram e dormiram.

A idéia de não mais poder jogar futebol ficou na cabeça do garoto. Passaram alguns meses e ele leu nos jornais o caso de um espanhol que havia ficado tetraplégico e lutava nos tribunais de seu país para que o deixassem morrer.

- Por que ele não pode morrer? - Perguntou aos pais.

- Porque seria homicídio matá-lo. - Respondeu o pai. Ele nunca tratou os filhos como crianças bobinhas.

- Homicídio? - Disse Saulo, sem entender o sentido da palavra.

- Claro! - Continuou o pai. - Se alguém desligar seus aparelhos estará matando o rapaz!

- Mas ele quer morrer! - Saulo sacou que homicídio era o mesmo que matar alguém.

- Ajudá-lo a morrer chama-se eutanásia! - O pai olhava para o filho. Sabia que aquele jovem curioso estava com as pestanas em chamas. - Pode ser um ato misericordioso mas algumas religiões acham que ninguém têm o direito de abreviar a vida de outra pessoa.

- Quais religiões? - A pergunta de Saulo servia mais para prolongar a conversa que para elucidar uma dúvida. Sua cabeça estava anuviada de tantas informações.

- Acho que todas. - O pai voltou os olhos ao jornal. - Nenhum país reconhece a eutanásia. - O jovem olhou admirado para o pai. - O espanhol talvez não consiga morrer mais cedo para diminuir o próprio sofrimento. - Seu pai sabia sobre tudo, além de ter opiniões bastante interessantes, pensou Saulo.

Eutanásia! Ajudar alguém a morrer. Um ato de misericórdia suprema! Saulo resolveu que se um dia ficasse tetraplégico, preferiria morrer, para isso precisaria da ajuda de alguém. Procurou o amigo da mesma sala.

- Fábio, vamos fazer um pacto! - Conversavam no ônibus de volta para casa.

- Qual?

- Se eu ficar tetraplégico, você faz eutanásia em mim. - Explicou.

O amigo caiu na gargalhada.

- O que é eutanásia? Punheta em aleijados? Hahaha.

Saulo explicou o que era eutanásia e o amigo concordou em puxar a tomada se fosse preciso. Alguns anos se passaram e o amigo sumiu do mapa. Saulo percebeu que os amigos iam embora na mesma medida que os anos passavam. Resolveu confiar seu pacto com quem nunca o abandonava.

- Mauro, vamos fazer um pacto!

- Não temos mais idade para isso, mano. - O irmão lavava o carro.

- É sério. Presta atenção! - Esperou o irmão desligar a torneira. - Se algum dia eu ficar tetraplégico, quero que você faça eutanásia.

- Eutanásia? - Assustou-se o irmão. - Mas seria crime. Eu seria preso.

- Você tem que arranjar um jeito.

- Ok, eu dou um jeito. - Mauro concordou com o pacto. Talvez mais para encerrar aquele papo chato do que por concordar com o assunto.

- E tem mais: se eu virar um vegetal também! - O mais velho se lembrou que haviam outras condições. - Ou se eu perder os braços e as pernas.

- Se você perder os braços e as pernas vou te usar como mesa de centro da sala! Hahahaha. - O mais novo já havia voltado à lavagem e nem dava mais atenção.

Certo dia Saulo chegou em casa eufórico.

- Comprei uma moto! - Anunciou aos pais. A mãe foi para o quarto chorar. O pai quis saber qual a cilindrada da moto. O irmão o chamou num canto.

- Bonita. - Abaixou a voz. - Mas e aquela história de pacto?

- Eu não quero morrer, irmãozinho. - Soltou um peido. - Tá sentindo? O que comi?

- Bosta! - Gritou Mauro. - Deve ter comido bosta, pra peidar desse jeito.

Os anos se passaram. Saulo se casou e Mauro era conhecido como o Giovani Casanova da região. O mais velho quis melhorar a renda de sua nova casa e estudou arduamente para passar em um concurso público. Nunca ficava entre os classificados. Um dia viu que estava aprovado.

- Vou ser policial civil! - Explicou à esposa. Ela foi para o quarto chorar. - O que foi, benzinho?

- Você vai é ser morto por esses bandidos. - Ela alternava as palavras com os soluços. - Não quero que você morra.

- Nem eu quero morrer, meu amor! - Saulo tinha bastante ternura da voz quando queria. - Ainda tenho muito o que fazer.

Com o incremento na renda, a primeira coisa que Saulo fez foi realizar um sonho antigo: comprou uma Asa Delta. Fez aulas durante meses até sentir-se preparado para voar sozinho. Voava sempre que tinha tempo livre, em poucos meses já era um mestre. Comprou um cockpit auxiliar e levava a esposa sempre que conseguia convencê-la de que não havia perigo. O irmão mais novo nunca aceitou um convite para voar.

- Se fosse para a o ser humano voar, teria nascido com asas. - Dizia o irmão.

- Mas a gente sabe nadar e não vive na água. - Retrucou um dia uma namorada de Mauro.

- Se você reparar, minha gata, - O mais novo chamava todas as namoradas de gata, "para não trocar os nomes", dizia ele - os homens se parecem com anfíbios. Pernas mais compridas que os braços. - Saulo agachou-se e pulou como um sapo. - Burd. - Coaxou.

- Tá me chamando de sapa? - Perguntou a namorada, divertida.

- Não, de mariposa apaixonada! - Mauro pulou sobre ela e a lambeu o rosto - Burd.

No ano que a mãe completaria sessenta anos, os filhos, homens feitos, decidiram fazer uma bela surpresa: um passeio pela Europa para toda a família. Compraram as passagens, reservaram os hotéis, discutiram roteiros. O mais novo resolveu finalmente aprender inglês e o mais velho o acompanhou nas aulas.

No dia do embarque, subiram a escada rolante do aeroporto orgulhos da diversão que teriam em família. Animados, os seis viajantes conferiam horários, passaportes e o resto na porta do embarque quando Saulo resolveu esvaziar a bexiga. Dizia que não conseguia mijar em banheiro de avião, sentia pressão no amiguinho.

- Onde é o banheiro? - Perguntou a uma funcionária com os cabelos tão puxados num coque que seus olhos ficavam parecidos com os de japoneses.

- Só no térreo, senhor. - Tinha voz de japonesa.

- Vou de escada-rolante. - Correu para a lá e tropeçou no primeiro degrau em movimento. Só o irmão o viu sumindo pela escada.

- Saulo caiu! - Gritou, correndo para a escada-rolante.

 

Mauro entrou na sala da UTI. Avistou o irmão entre tapumes de pano, deitado numa maca. Havia um grosso tubo sobre seus lábios e um fino cano em cada narina. O corpo estava esticado, os braços ao lado do tronco, com as mãos esticadas. Os pés tinham os dedos caídos para frente. O mais novo mexeu em alguns equipamentos sobre o balcão da enfermaria e depois conferiu o soro que estava sendo injetado na veia do irmão.

Ele acordou.

- Mauro, você sabe o que você tem que fazer. - A voz do mais velho estava clara, embora fraca e fina por causa do tubo de oxigênio.

- O que? - Os olhos apertaram de espanto.

- Você não lembra do nosso pacto? - Saulo engrossou a voz.

- O pacto? Claro! - Mauro parecia animado. - Mas aquilo era coisa de criança.

- Não éramos tão crianças assim!

- E daí? - A voz estava desdenhosa. - Você tá querendo que eu faça alguma coisa?

- Presta atenção! - O irmão mais velho estava com o cenho franzido. Falou em voz dura. - Logo vou tirar este tubo de oxigênio pois meu corpo, - parou para respirar - vai se acostumar a respirar sozinho. Estou tetra. - Aumentou a voz. - Pentaplégico, se contar também a inutilidade do meu pau! - Olhou com carinho para o irmão. - Faça o que combinamos. Basta você desligar o aparelho de respiração. Tire-o da tomada.

- E a polícia?

- Dane-se a polícia! - O rosto ficou vermelho e Saulo tentou se controlar. - Irmão, presta atenção: dá tempo de você desligar a máquina, esperar eu morrer e religar a máquina. Ninguém vai notar. - Ele falava rápido e o esforço o fez tossir compulsivamente.

- Não, Saulo, não dá para fazer isso não! - Foi até a máquina de respiração e a olhou com cuidado. - Não, não dá mesmo!

- Porra! - Explodiu Saulo. - Eu sabia que você ia arregar. Sempre foi um bundão. - Tossiu. Respirou fundo e a máquina operou com mais rapidez. - Puta que pariu! Eu não vou agüentar viver assim!

- Irmão, eu te amo! - Disse Mauro.

- Eu tenho o direito de morrer! - O irmão o olhou fixamente. - Vai me desligar a máquina de respiração?

- Não.

- Então vá embora. - Saulo fechou os olhos e suspirou. - Estou cansado.

O irmão mais novo caminhou até a beirada da cama e segurou a mão do irmão. Ele sabia que ele não poderia senti-lo, mas queria apertar aquela mão tão conhecida. Arrumou os cabelos do mais velho em desalinho sobre os olhos.

Sentindo o toque em seu rosto, Saulo tentou abrir os olhos e não conseguiu. Estava cansado.

- Saulo, conversei com os médicos - Disse calmamente. - sobre formas de abreviar sua dor. Muitos são a favor. - Respirou e continuou. - Se eu desligasse a máquina de oxigênio seria descoberto pela lei, pois há um registro na máquina que marca os horários de funcionamento. - Passou a mão pelo peito do irmão. - Quando entrei no quarto injetei heroína no tubo do seu soro. - Esticou o dedo apontando o coração do irmão deitado. - Como você nunca se picou com heroína, a dose que eu te injetei lhe provocaria uma overdose no momento que entrasse na sua corrente sanguínea. Estouraria seu coração. - Abaixou-se e beijou a testa do irmão. Continuou abaixado e cochichando em seu ouvido. - Entrei no quarto e fingi que iria deixá-lo fodido desse jeito. - Engrossou a voz. - Você ficou puto! Produziu adrenalina, que é o antídoto da heroína. - Voltou a falar com calma. - Resistiu ao infarto inicial e agora está tendo a maior viagem da sua vida. Talvez até goze nas calças! - Beijou o irmão na bochecha. Não conseguiu segurar as lágrimas. - Em poucos minutos sua mente vai enrolar, seu coração vai parar e você vai morrer. - Apertou a mão do irmão.

Um leve silvo saiu da boca do irmão deitado na maca.

Mauro sempre gostou de lembrar desse silvo como as palavras "eu sabia".

 

fin

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