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Crise de Vireida (versão alterada) O sábado seria cheio. Logo cedo o Juliano Lupus ao telefone. - Cheguei. – Anunciou. Acordei, pensei. - Vou esperar na feira da torre de tv o horário da reunião. Iríamos conversar com o Igor Arrelia da editora Derrotaurus sobre a possibilidade de publicar o Bar do Escritor, nosso zine de literatura. A patroa fez bico:”queria esta atenção que você dá ao bar”. Pitamos unzinho para começar bem o dia. O café da manhã sempre é mais gostoso depois de um baseado. Liguei para a Vanessa. - O Lupus já chegou. - Que horas será a reunião? – Ela perguntou. - Dez e meia. - Estarei na sua casa às nove. - Tá doida? A editora é aqui perto. Chegue dez e quinze. Fiquei ruminando sobre o jornal até o porteiro interfonar, a Vanessa estava lá embaixo. Já são dez e quinze? Me aprumei no tempo dela chegar ao apê. Passei a lambidela final no baseado e apresentei minha mulher. - Hoje não vou fumar. – Desculpou-se Vanessa. “A desculpa dos caretas”, sorri. Com toda a fumaça na cabeça dirigi a camionete até o SIA ao invés do SIG, a sede da editora. As siglas de Brasília confundem-me ainda mais quando estou alto. Ou talvez a palestra que eu dava para Vanessa sobre como iríamos dominar o mundo através do BDE tivesse diminuído minha atenção. Demos umas voltas meio perdidos no Setor de Indústrias Gráficas até chegar à frente da editora exatamente às onze horas. O Igor saia com o escritor HP Maker, seu funcionário. - A gente só vai ali rapidinho. – Falou Henry Paul. - Ok. Ainda esperamos nosso representante de Goiânia. – Impostei a voz para ter um ar de importância. Apareceu um carro e dele saiu um cabeludo. O sotaque o revelou, era o Lupus. Cumprimentamos-nos e ele esticou uma garrafa de bolso. - É a Coqueirinho, a cachaça de Paraty. – Ele havia estado na feira de literatura com outros escritores do bar. Dei uma beiçada e me surpreendi com o delicioso gosto. A bebida é conhecida por sua coloração azulada pelo excesso de zinco na água. Mandei outra para dentro, queria melhorar minha articulação para a conversa com o editor. Esperamos uma hora. Conversamos sobre nossas vidas e literatura. Embora mantivéssemos contato há mais de ano, era a primeira vez que nos víamos. A reunião começou e tratei de ligar a matraca com as idéias já bem desenvolvidas. O Igor levantou a mão e falou com seu sotaque “la garatia soy yo”, Avisou que não acreditava na interNerd como meio de propagação da literatura. - Mas... – Fui cortado pelo editor que destilou seus projetos e suas visões. A prosa não estava favorável para nós. Igor folheou o livro de poesias de Vanessa para mostrar que na interNerd não existe arte pois não há contato com o texto. Ele quer contato? Basta abraçar o monitor! Recitou o poema em voz alta. - Hay poesia aqui. – Afirmou. Vanessa inflou e seu sorriso atingiu as orelhas. Quase interferi para ironizar sua percepção em notar uma poesia num livro de poesias. O Lupus só o observava. Ex-investigador de sinistros de uma corretora de seguros, certamente percebia a falta de abertura para propostas inovadoras do velho “publisher” à nossa frente. Muito blablablá e marcamos outra reunião, a maneira mais inteligente de nos dispensar. Confabulamos no estacionamento: Vanessa adorou a reunião, já via a possibilidade de ser editada pela Derrotaurus; Lupus não se impressionou e eu achei uma merda, queria que Igor tivesse se empolgado com a idéia. Despedimo-nos. Vanessa, feliz, foi embora com o marido. Lupus foi almoçar a namorada. Ou com ela, não sei. HP apareceu antes d´eu cair fora. - Hei, vamos detonar um bagulho ali na sacada? Opa, ao menos a viagem não seria de todo perdida. Compramos umas cervejinhas e fomos para o terraço da editora. A maconha era de qualidade. Meu cérebro entortou, quase afetando o alinhamento dos neurônios. Conversamos sobre as idéias da editora, um trabalho difícil e quase sem retorno financeiro. Uma batalha quixotesca em defesa da leitura. Voltei para casa a tempo de fumar o baseado que minha mulher aprontava. Eu estava com larica mas deixei para aproveitar os petiscos no chá de panela que iríamos a seguir. Um primo se casaria. Eu queria dissuadi-lo, contudo, todo homem deve aprender por si as armadilhas da vida. Bebi tudo que pude na festa. Também me empanturrei de salgadinhos, salames, queijos e tomate seco. As brincadeiras com os noivos era meio entediante, tive que me distrair contando mentiras às pessoas de nossa mesa. Aconteceu um mini-concurso de textos para ver quem conhecia melhor os noivos. “Tá pra mim”. Rabisquei umas linhas me sentido superior por ter conversado com um editor naquela manhã. O vencedor foi meu pai contando uma história engraçada sobre mamadeiras. Em segundo ficou minha irmã com elucubrações sobre cavaleiros e princesas. Por volta das nove horas acabei chamando os malucos para terminar a bebedeira na minha casa. Já estávamos sendo expulsos. - Isso é um chá de panela ou chá de bebê? – Entortava a língua meu pai, brincando com o trocadilho entre bebê e beber. Minha mãe o arrastava para o carro. Os convidados passaram num mercado para abastecer a geladeira de cervejinhas. Pedi uma garrafa de Seleta à minha irmã pois não queria gastar as preciosidades da minha coleção. Liguei para o Lupus e o Hantz. Queria apresentá-los. Quando todos chegaram o baseado já estava pronto. Reiniciamos os trabalhos. O marido de uma prima capotou na varanda. - Tá na hora do leite condensado. – Ela buscou a lata e derramou goela abaixo no sujeito. Em minutos ele estava novamente sentado com uma latinha nas mãos. Conversou e brincou durante mais um tempo, porém capotou de novo. Busquei uma manta e o cubri no chão. A cachaça já ia pela metade e as cervejinhas estavam apenas começando. Engatei uma conversa sobre textos com Lupus e Hantz. Falamos sobre muitas coisas legais e importantes que foram esquecidas logo em seguida. As latinhas se sucediam. Eu temperava a cerveja com goladas de cachaça. Busquei livros, opinamos sobre textos, fofocamos sobre o Bar do Escritor. - Vou mandar uma mensagem para a mascaruda. – Liguei o computador e deixei um recado no perfil do orkut da Maria Má. A madrugada já ia longe e ela ainda conectada. Respondeu algo que não percebi pois as linhas da tela balançavam no mesmo ritmo da minha pulsação irregular. A bebida me afetava, era hora de outro baseado para contrabalancear as coisas. Fumamos e bebemos. Algumas pessoas tomaram rumo de casa. Bom de papo, Lupus contava histórias e piadas. Quando o Hantz percebeu que não iria comer ninguém resolveu ir embora. Ficamos apenas eu e Lupus, minha mulher já estava desmaiada há tempos. Entornamos mais algumas. Meus olhos começaram a pesar. Pisquei. As pálpebras não me atenderam e mantiveram os olhos fechados, tive que puxá-las para cima. Lembrei dos desenhos em que os personagens colavam tiras de durex na sobrancelha para não dormir. Acho que chamei o Lupus de Hantz algumas vezes. E talvez tenha pescado com a cabeça. Lembro apenas de confundir o cabeludo na minha frente comigo mesmo quando era mais novo. Lembro que vimos as horas antes dele cair fora, passava das quatro. Dei por mim novamente abraçado à privada. Eram umas oito da manhã. As contrações do estômago tentavam expulsar os resquícios de álcool. Fiquei um tempo ajoelhado fazendo a oração dos ressaqueados. Bebi o chá de boldo que a patroa sempre faz nessas horas e comi um pedaço de pão. Tinha que botar algo na barriga para poder vomitar. Lá pelas dez consegui me sentar na privada para soltar um cagalhão. Lembrei do Bukowski, ele é que chamava assim. O cheiro de merda que empestou o banheiro me enjoou. Ajoelhei-me novamente para vomitar. A visão daquela bosta preta me inspirou e quase expulsei o fígado. Era o dia dos pais. Cheguei à casa dos meus velhos no momento que estavam servindo o almoço. Minha irmã parecia também estar com ressaca. - Nossa. – Exclamou minha mãe. – Encheu a cara ontem, não foi? - Poisé. – Concordei. – Tive uma crise de vireida. Todos se entreolharam. Vireida? - Sim. – Fiz a devida pausa. – Vireidavesso. |
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fin |
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