Consciência Venenosa
From: jomarcarvalho
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O assassino dos velhos em Pirenópolis está em São José do Rio Preto, SP. Ele veio de carona num caminhão de pedras. O motorista não sabia, é meu amigo. Me pediu para avisar a polícia, tá inseguro. Decidi antes te mandar esta mensagem. ------------- Contemplei o email por vários minutos. O anúncio de matador de bandidos no fórum de direitos humanos na internet dava resultados. Pessoas descrentes com a justiça pediam vingança. Eu comprovava a veracidade dos dados antes de qualquer ação, me borrava de medo de ser investigado pelos meninos da lei. De um cybercafé respondi ao paulista que não tinha tempo de procurar o vagabundo por toda a cidade. Ele retrucou dizendo que o mala perambulava bêbado pela praça Jardim Vivendas. Botei na mochila duas garrafinhas de cachaça e parti de moto para São Paulo. O vento invadia o capacete assoviando uma inconstante sirene. A estrada nova estava repleta de pedágios e barreiras policiais. Fiquei satisfeito por não levar as armas. E também por encontrar desvios dos pedágios nas trilhas paralelas à pista. Meu coração anarquista não admitia pagar outra taxa além do IPVA. Na cidade segui as placas direto à praça. Não foi difícil encontrar o tal Ricardo esparramado num banco. Ele vestia calça jeans, camiseta e chinelo de dedo, a mesma roupa de quando foi avistado num matagal perto de Pirenópolis. A complexa operação tática a polícia não o capturou, mas colheu informações que vazaram para mim através de um amigo meganha que também prefere os justiciamentos. Observei o sacana de longe por um bom tempo. Ele mendigava uns trocados, bebia uma pinga no boteco da esquina e voltava ao banco da praça. Segurava a cabeça apoiado com os cotovelos nos joelhos, depois olhava para o céu e apertava os olhos. Parecia sofrer por algum problema. Sua consciência não estava limpa, é claro, mas me surpreendi ao perceber que ele podia estar se punindo pelo assassinato. Aproximei-me. Haviam poucas pessoas ao redor e todos os outros bancos estavam vazios. Ele se exaltou receoso. Sua desconfiança logo se esvaiu quando viu o baseado pendurado na minha boca. Sentei ao seu lado e o cumprimentei com a cabeça fingindo desinteresse. - Tem fogo? Pedi para disfarçar. - Não fumo. - Não te perguntei se fumava. Perguntei se tem fogo. Bradei e me arrependi em seguida. Eu devia ganhar a empatia do sujeito ainda que quisesse esganá-lo ali mesmo. Arranquei com uma mordida a ponta de papel do baseado e a cuspi quase aos pés do canalha. - Hei. Reagiu. - Foi mal. Tirei do bolso uma garrafinha e bebi uma talagada da cachaça. Percebi de soslaio que Ricardo acompanhou meus movimentos. - Quer uma dose? ofereci. Ele aceitou e mandou para dentro. Devolveu a garrafinha que guardei na jaqueta. - Onde eu compro fósforos por aqui? - No boteco. Apontou o local onde eu o vira bebendo. Ao lado havia um armazém de produtos agropecuários, elemento perfeito no plano para apagar os vestígios da minha presença. - Aí, mermão. Cocei o joelho. Você compra um fósforo para mim? Tô com um problema na perna. Ele ficou desconfiado. Dei o último gole na garrafinha. - Aproveita e enche. Estendi uma nota de cinco pilas e pisquei sorrindo. Ele pegou a nota e a garrafinha. - Cara, passa no armazém e compra um pacote de veneno de rato também. Preciso me livrar de uns sacaninhas. Fiquei observando o assassino entrar no bar, depois no armazém e voltar até o banco. O idiota não sabia que estava criando as provas do próprio suicídio. - Ó. Deu-me um pacote de veneno Ratol, fósforos e a garrafa cheia. Destampei e mandei uma beiçada. Guardei as coisas no bolso externo da jaqueta. - Valeu. Risquei um palito e acendi o baseado. Traguei profundamente e prendi no pulmão. Quando soltei, a fumaça parecia uma cobra azul serpenteando em direção ao sol. Puxei a garrafinha que estava no bolso interno da jaqueta e a ofereci sem tampa ao assassino. Ele deu um grande gole. - Manda mais. Incentivei. Como pagamento por sua gentileza. Ele bebeu outra boa dose. Continuei fumando sem oferecer, não queria gastar minha erva com um cadáver ambulante. Guardei a garrafa que ele me devolveu e tirei a outra do bolso de fora da jaqueta. Não sei se Ricardo viu esta troca, já não importava. - Sabe, - traguei novamente. o Ratol que você me comprou é muito bom, composto à base de chumbo, mas prefiro o veneno Mão Branca, que tem um percentual maior do agente tóxico. Quando entra no estômago da vítima é morte certa. Bebi um gole. Tem ação mais rápida quando diluído em álcool. Em poucos minutos a vítima sente uma queimação na barriga. A mão que ele levou ao estômago pode ter sido um reflexo sintomático, mas achei que já sentia algo diferente. - Logo sente as veias em fogo e começam as convulsões, mas a morte ainda demora quase uma hora. É puro sofrimento. Puxei a última tragada e dei um piparote na bituca. Igual à dor dos parentes de Cirilo e Ceci, os velhos que você degolou em Pirenópolis. Minhas palavras atingiram Ricardo como um soco. Ele abraçou a barriga e simulou uma ânsia de vômito. Seus olhos perderam o foco. O Mão Branca que eu havia colocado na garrafinha reserva já havia sido absorvido e queimava as entranhas do assassino. Ele começou a tremer e saliva escorreu pela lateral da boca. - Cheguei a pensar que você estivesse arrependido. Talvez até esteja, mas ninguém saberá. Não importa. O que você fez não tem perdão. Aproximei o rosto do moribundo. Manda um oi pro capeta, seu merda. Coloquei o pacote de Ratol em suas mãos. A polícia ligaria as pistas e concluiria que ele se suicidou por dor de consciência. Ter comprado cachaça e veneno nas lojas ao redor seria a comprovação irrefutável. Dias depois li no jornal a notícia de sua morte com o título assassino comete suicídio. A única pista que poderia me identificar seria a garrafinha com o veneno. Nem a placa da minha moto ficou registrada nas filmagens dos pedágios. O IML não faria uma autópsia para saber se o veneno no bucho do bandido era o mesmo encontrado em suas mãos. Voltei para Brasília acelerando a moto, eram apenas três horas da tarde. |
fin |
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