Atraio viado
Eu estava num clube em Belém do Pará, com vários amigos escoteiros, tomando sol e bebendo guaraná - tão moleque eu era - quando um viadinho magrinho, com uma sunguinha ridícula, desfilou aos gritos por todo o clube até chegar a mim, me olhar, e dizer: - Nossa, como você é um tipão. - Uns pentelhos oxigenados e loiros saiam da sunginha ridícula. - Gostei de você, garoto. - E saiu rebolando. Após o silêncio da surpresa, a explosão de gargalhada da turma atingiu meus ouvidos e minha consciência. Alertou-me tal fato. Notei que atraio viado. Sou um heterossexual tarado, do tipo grandalhão e esportista. Certa vez uma bichinha disse que era esse meu estilo que atraia os viados. Muitos caras másculos gostam de viados. São caras malhados, que se cuidam, usam perfume e normalmente são solteiros com mais de trinta anos. Os gordos escrotos nessa idade são normais. Chamar um grupo de normal é dizer que o outro é anormal. Bem, é por ai. Viado nunca se controla. Um dia vai cair em tentação e fará algo que afetará a amizade. Normalmente é alguma putaria sexual. Viado é foda, só quer saber de putaria. Sempre corto o papo do viado pela raiz. O viado se aproxima ou faz algum comentário. Logo nego atenção olhando-o nos olhos para deixar claro que nem quero mais papo. Algumas vezes funciona. Outras não. Alguns se emocionam com meu olhar. A primeira vez que um viado se aproximou mais diretamente me ensinou algumas coisas. Sai do meu bairro de bicicleta. Tava com us 17 anos. Percorri uns 5 km e entrei na ciclovia. Ela descia até o lago e o margeava durante uns 6 km, entre bosques, píeres abandonados e muito mato, até chegar a um parque com churrasqueiras e brinquedos infantis. Havia também uma lanchonete e outras lojinhas. O parque era ao lado da ponte que eu deveria atravessar para chegar em meu destino, a casa de uma amiga. Na carreira da descida, passei por um homem sentado num tronco no meio do mato, masturbando-se. Ele tava de pernas abertas. Nem olhei novamente e fui embora. Sem nem lembrar do acontecido, quando parei para descansar no parque e beber um pouco de água, vi que o homem havia saído do mato e também estava de bicicleta. A minha era uma cross e a do cara era de dez marchas, para corridas. Ele ficou me olhando. Fiz cara de mau. Voltei para a bike. Estava sobre a ponte, pedalando, quando senti o pedal soltar-se da corrente. Quase cai no asfalto. Encostei para arrumar a bicicleta, puto, pois não estava com ferramentas. Peguei uma pedra para consertar a corrente, prendendo-a com um elo a menos. Lutando com a pedra e a corrente, vi o homem se aproximando. - Oi. Tudo bem? - Perguntou o punheteiro. - Tudo. - Respondi, sem dar atenção. Se ele estender a mão para me cumprimentar, mando tomar no cu. - Quer ajuda? - Solícita era a voz do homem. Uns quarenta anos, meio fora de forma, branquelo. - Não precisa, tá tudo certo. - Então tudo bem, tchau! Eu sempre achei que dar tchau para um cara que você acabou de conhecer é uma coisa muito gay. Não dá para explicar. Quando você conhece outro homem tem que manter um certo respeito e precaução, para ver se poderá confiar no sujeito ou se ele será apenas um conhecido qualquer. Quando o homem dá tchau ao acabar de conhecer outro homem, já entra numa intimidade que não pode existir. É nessa intimidade simplória, que não existe entre dois homens de verdade, que se percebe o homossexual. Viado é entrão. Na verdade é isso que ele quer, que você seja entrão nele e ele em você. Que horror. Fui pedalando pela avenida central da cidade com a corrente arrumada. Notava, de tempos em tempos, a bicicleta de corrida do sujeito por caminhos perpendiculares ao meu. Uns quinze minutos depois ele me alcançou. - Oi, pára ai um minutinho. - Pediu o cara. Estávamos no meio de um entroncamento viário. Só asfalto, grama e umas moitas. Parei, sabendo que teria que resolver logo aquela situação. - Pode falar. - Disse, frio, enquanto aparava a bicicleta com a perna. - Se eu pedir para chupar seu pau, o que você diria. - Eu diria: sai fora, viado! - Subi novamente na bicicleta para sair dali. Pedalei com força mas a corrente quebrou novamente. Abaixei-me e a alcancei do chão. O viado botou a mão no meu ombro. - Espera. Vamos conversar. - Sai fora, viado, eu já disse! - Gritei, empurrando a mão e contornando a bicicleta. - Espera. - Insistiu o entrão, esticando os braços para mim. Acertei-o com a corrente. Vi o vergão vermelho e branco riscado na cara do sujeito. - Ora, seu ... - O homem segurou o rosto, ficou vermelho de raiva e veio para cima novamente. Bati a corrente mais uma vez na cara dele. Ele parou o ataque. Segurei a segunda ponta da corrente junto da primeira, dobrando sua espessura. Bati de cima para baixo na cabeça. Ele se abaixou. Acertei as costas e as pernas. Ele caiu. Tentei bater no rosto ou na cabeça, mas ele se protegeu. Chutei as costelas. Voltei para minha bicicleta e fui embora me empurrando com as pernas, sem pedalar. Do outro grupo de homens grandalhões como eu, os que não gostam de viados, quando abordados, normalmente apenas repelem as investidas. Uma pequena parte arrebenta a fuça do puto. Não gosto de ser dessa pequena parte, mas não consigo me conter quando um viado abusa da boa vontade. Com uns vinte e poucos anos estava num fliperama, gastando umas moedas. Perdi um jogo e fiquei bisbilhotando sobre o ombro de um jogador suas táticas de ataque. Olhei ao redor e vi um senhor com camisa branca, meio careca no telhado, de óculos, com uma pasta de couro. Ele olhava ao redor, assustado. Espionei o sujeito, no meio da multidão. Ele abordou um sujeito e lhe perguntou algo. O sujeito negou. Abordou outro. Esse tirou o braço de sopetão. De repente, o careca sumiu no meio das gentes. Uma hora depois, em frente a uma lanchonete, encontrei o careca novamente. Ele estava na minha frente, apoiado numa pilastra. Olhou-me de cima a baixo e cumprimentou-me com o olhar. Eu estava de jeans e camisa branca. Lembrei que os outros que ele abordou também estavam de jeans e camiseta branca. Não respondi o cumprimento. Continuei com meu passo. O homem segurou no meu braço. - Não é você? - A voz era baixa. - Me solta, filho da puta, você o quê? - Puxei o braço, empurrando o sujeito. Fui embora. Depois do cinema, fui ao banheiro. Vazio, escolhi o mictório do meio. Antes de botar pra fora o bingulinho, escutei a porta do banheiro abrindo. Alguém entrou. Segurei o mijo por instinto. O homem da pasta está no banheiro. Botei o pau pra dentro. - Oi. - Diz, surpreso ao me ver. Não respondi. Tentei sair sem lavar as mãos. - Espera. - Ele moveu-se levemente para a minha frente. - Você não quer ganhar um dinheiro. - Não, cara, sai da minha frente! - Respondi, seco. - Peraí. - O homem era incisivo. Estava calmo. - Olha, é bastante dinheiro. Quer saber? A gente vai ali pro reservado e eu te dou o dinheiro. O cara devia estar achando que eu era algum michê com crises de identidade. Resignei-me. Abri caminho para o viado caminhar até o reservado. Ele se aproximou da parede. Pelas suas costas, empurrei sua cabeça e a bati no azulejo. Com a surpresa do primeiro golpe, consegui bater a cabeça mais duas vezes. Ele se virou, tonto. Acertei no meio da cara com a direita. O cara caiu encostado na porta do reservado que queria me levar. Nem sei o que queria que eu fizesse lá dentro. Fiz tudo o que queria fazer aqui fora mesmo. Chutei onde devia ser o saco do viado antes de sair do banheiro. O tempo foi passando e vi muitas pessoas assumindo suas homossexualidades. Alguns eu desconfiava e outros eu tinha certeza. Nunca fui surpreendido. Sempre percebi a tensão no ar quando um viado estava por perto. Eu sabia que logo ele se revelaria. Aprendi isso vendo um mundo mudar. Na oitava série, com 14 anos, eu ainda era baixo para a minha idade, mas era bastante invocado. Nunca puxava confusão no entanto não saia dela nem por decreto. Havia um cara na sala que se chamava Glen. Era dois palmos mais alto, loiro, com alguns músculos e atleta do time de vôlei. Eu era o palhaço da sala e logo comecei a imitar o Glen na quadra, jogando vôlei. Apoiava as mãos no joelho e empinava a bunda. Corria e dava uns saltos na ponta do pé. Jogava-me no chão, meio desmaiando, e depois levantava arrumando o cabelo. Todos riam muito pois era bastante parecido com o Glen jogando, porém um tanto mais afeminado. A forma do Glen se locomover, parar, correr e falar era afetada, porém ele tinha namorada e não aceitava aquele tipo de brincadeira. Um dia ele entrou na sala e me viu imitando-o na frente da turma às gargalhadas. Ficou tão irritado que nem pensou duas vezes. Derrubou-me ali mesmo e esmurrou minha cara. Imagino que ninguém ainda havia revidado contra ele, pois o chute que lhe acertei na barriga de imediato após o murro o fez parar. Chutei novamente e ele caiu para trás. Assustado por ter conseguido derrubar um oponente tão maior e mais forte, cometi o pecado dos nanicos. Cai matando! Pulei de joelhos no peito de Glen. Deite-o no chão e preparei-me para esmurrar-lhe a cara. Não tive tempo. Ele me empurrou para o lado e logo bateu novamente na minha cara. Tentei acertá-lo mas não consegui. Ele me esmurrou mais umas três vezes. Alguns gritos o alertaram e ele parou de me bater. A turma se arrumou como pôde enquanto o professor entrava na sala. Eu ainda estava caído no chão. Meu nariz sangrava e eu tinha a impressão que o olho direito estava fechado de tão inchado. Na verdade estava apenas embaçado. - Levante-se do chão, rapaz, e conte-me o que aconteceu! - Disse o professor, em pé ao meu lado. Um antigo padre que largou a batina para casar com a coordenadora educacional do magistério. Se eu dedurasse o Glen provavelmente ele seria expulso e eu receberia apenas uma suspensão por tê-lo ridicularizado em sala. - Eu cai e bati a cara no chão. Foi por isso que tava todo mundo gritando. Eu fiquei com a cara do Treze. - A turma caiu na gargalhada. Treze era o apelido de um colega nisei. Eu o chamava de Treze pois dizia que ele havia caído com a cara no chão do décimo terceiro andar de um prédio. Por isso ele tinha aquela cara amassada. Eu também estava agora com a cara amassada. - Sempre cheio de graça. - Disse o professor, divertido. - Vá se sentar que a aula de hoje é chata e não quero vê-lo deitado no chão novamente, dormindo. - Agora era ele quem tirava onda. Durante o resto do dia nem olhei para o Glen, mas vi que a turma me olhava admirada. Todo esse respeito de nada adiantou. Comecei a ser desafiado e por vezes espancado pelo Glen. Alguns de sua turma pegaram suas dores e passaram a me dar cascudos sempre que cruzávamos os corredores. Uma semana depois, recorri ao Zezinho. Zezinho era um cara do terceiro ano, logo estaria na universidade. Era um dos maiores caras do colégio. O melhor de tudo é que era muito meu amigo. - Zé, tô fudido, cara. Tem um mané ai que tá me batendo o tempo inteiro. - Disse, já meio choroso, assim que o vi num corredor. - Calma, o que houve? - O Zezinho, embora fosse um cara grande, não gostava de confusões. Nunca brigava, apenas resolvia as coisas na lábia. Foi por isso que nem perguntou quem era o cara que me batia. - Um cara tá me pancando só porque brinquei de imitá-lo na sala. - Expliquei rapidamente. - É um viadinho perfumado. Um tal de Glen. - O Glen? - Perguntou Zezinho, assustado. - Você o conhece? - Fiquei desiludido, pois se fossem amigos o Zé não me ajudaria. - Conheço. Ele é um viadinho mesmo. Mas é nervoso. Ele é amigo do meu vizinho. - Refletiu. - Que nada, - Amigo do vizinho pode apanhar, pensei. Zezinho estaria comigo. - Você pega ele! - Incentivei e voltei para minha sala. Horas depois vi o Zé conversando com o Glen. Estavam rígidos, um em frente ao outro. O Zé era maior quase um palmo. Glen discordou de alguma coisa mas Zezinho foi incisivo. Pareceram aceitar um trato e se separaram. Fiquei parado em frente à sala, enquanto Glen entrava. Nem me olhou. A conversa do Zezinho havia tido resultado. Anos mais tarde o Zé me contou que estava apavorado ao ameaçar o Glen. O loiro tinha fama de pavio curto. Alguns anos depois, já adulto, encontrei novamente o Glen. Numa fila duma lanchonete, em alta madrugada, após um show de rock'n roll. Reconheci-o pela voz. Procurei por um cara loiro mais alto que eu, mas encontrei um sujeitinho com roupas coloridas e cabelos de várias cores. O Glen aparentemente havia assumido seus trejeitos afeminados. Ou estava cansado de brigar contra todos que troçavam com ele. - Eu conheço essa voz. - Eu disse, a meia altura - Era a voz dum cara que me batia quando eu era moleque. - O Glen, que estava exatamente na minha frente na fila, nem se deu conta de mim. Continuei. - Ele era maior do que eu. Agora tá menor. E é viado. - Provoquei. Nenhuma reação ainda. - Antes ele não era viado. Agora é viado. Viadinho. Um viadinho loirinho. - Eu falava quase ao ouvido de Glen. Ele ficou rígido ao ouvir o "loirinho". Virou-se pra mim. Olhou-me nos olhos e não me reconheceu. Voltou pra fila. - O nome do viadinho era Glen. Glen, o viadinho. Hoje em dia deve ser Glenda! A travesti! - Minha namorada e alguns amigos tentaram me conter. Contei-lhes quem era o Glen. Alguns me deram razão e outros foram comer. Glen, fingindo não ser com ele, fez seu pedido e dirigiu-se às mesas. Ao passar por mim, olhou-me novamente.Vi em seus olhos raiva pela minha provocação. De repente, olhando meu cabelo e meu corpo, notei que Glen lembrou-se de mim. Não posso ter certeza, mas imagino isso. Ele arqueou as sobrancelhas, entendendo o motivo da minha provocação. Ao fim, sorriu de leve. Posso jurar que sorriu pois gostou da minha aparência. Isso eu não podia agüentar. Joguei o sanduíche no pescoço do viado. Antes que pudesse guardar a bandeja já o vi sobre mim. Era viado mas era macho. Deu-me um tapa na cara. Doeu mais que um murro. Outro tapa. Levantei os braços para me defender, a bandeja caiu e ele acertou o joelho no meu saco. Além de ter assumido a homossexualidade, Glen também começou a lutar como uma mulher. Tentei um direto mas ele saiu do murro, andando para trás. Fui para cima. Apliquei-lhe uma banda. Ele caiu de costas, batendo a cabeça numa mesa antes de ir ao chão. Ajoelhei no peito de Glen. - Viado. Viado, Viado. Você já me bateu muito, seu viado. Glen, viadinho. - A cada palavra acertava um tapa na cara de Glen. O rosto estava vermelho. Os lábios sangravam. Ele tentou se levantar. Acertei um soco no nariz para ele continuar calmo. - Quietinho, viado. - Dei mais uns tapas antes das pessoas me puxarem de cima. Sempre achei que ele era meio viadinho. Mesmo quando o viado é bem conhecido, quase um amigo, ainda assim eles ficam atraídos por mim e fazem alguma besteira. Pode parecer pretensão, mas falo sobre o que vejo. E já vi viados honestíssimos fazerem besteiras. Casado, ainda sem filhos, fizemos uma festa em nossa casa. Minha esposa preparou os quitutes e eu gelei a cerveja. Vieram amigos e amigos de amigos. Um desses, rapaz muito bem vestido e milimetricamente barbeado, sempre perfumado e muito educado, comentou, ao chegar, que eu estava com ótima aparência. A bebida foi diminuindo e os elogios do rapaz foram aumentando: "gostei da sua calça. Vestiu bem em você", "você emagreceu, não foi. Tá mais bonitão" e "você tá fazendo exercícios, não é? Tá gostosão". No último comentário pedi calma. - Menos, meu caro, pega mal. Vão achar que eu estou gostando. - E você não está? Esperei que meu silêncio mostrasse a negativa. Não adiantou. Depois de alguns convidados se retirarem, o rapaz sentou-se ao meu lado e puxou um papo chato. Sem querer (acho), derrubou um salgado no meu colo. Prontamente o pegou de volta, roçando as costas da mão no meu pau. - Não acredito. - Eu disse, espantado. - Não gostou? - A voz lânguida era mais asquerosa que a mão que voltou ao meu pau. Retirei-a com cuidado. - Agora não, cara. Juntei-me aos convidados restantes e esperei a festa acabar. Obviamente o último a sair era o viado. Falei que iria acompanhá-lo até o carro. - Oba. Vamos então. - Nem despediu-se da minha esposa, tão excitado estava. Descemos pelo elevador. Ele tentou se aproximar mas apontei a câmera de vídeo. Ele se segurou. Mandou-me um discreto beijo que não retribui. Chegamos ao seu carro. Ele apertou um botão e o carro apitou. Abriu a porta. Era um carro novo e moderno. Ligou o som com o controle remoto que estava em seu bolso. - Vamos dar uma volta? - Perguntou. - Não posso. Vim aqui só para te dar uma coisa. - O que é? - A voz melosa me causava asco. A cada minuto ficava mais fresco o rapaz. Passei a mão esquerda em seu rosto com delicadeza. Segurei sua nuca. Ele fechou os olhos. Soquei o nariz com um direto que quase me torceu o pulso. O viado despencou igual fruta podre. Segurei-o pela gola da camisa e o empurrei para dentro do carro. Ainda tive a generosidade de abrir um pouco o vidro para ele não ficar muito sufocado lá dentro, pois não sabia quanto tempo ele ficaria desmaiado. Não quero mortes inúteis nas costas. Atraio viado. Onde vou sou abordado por homossexuais. Não ligo quando eles apenas puxam papo ou fazem algum galanteio educado. Como os viados saberiam que não sou igual a eles se não tentassem me cantar? Aceito o primeiro contato. Apenas o primeiro. |
fin |
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