Cadeiras

 

Sempre adorei cadeiras.

É difícil explicar quando comecei a gostar de cadeiras. Lembro que adorava a cadeira de neném, pois ela me equilibrava - eu era um neném, caia para os lados - e era lá que me alimentavam.

Depois fui para o andador. Era uma cadeira com rodas. Foi minha primeira experiência de pilotagem.

Eu olhava meu pai e meus tios sentados em suas cadeiras na mesa. Eles me pareciam gigantes sentados em seus tronos. Meu tio Lavim me perguntou o que eu queria ganhar de aniversário.

- Uma cadeira. - Respondi. Ele achou estranho e até engraçado. Trouxe da fazenda uma cadeira feita pelo carpinteiro, com couro cru de assento. Era perfeita para mim. Eu era muito pequeno, quando cresci, a cadeira era menor que meu pé.

Logo freqüentei cadeiras que eram incômodas mas muito interessantes. A cadeira do colégio e a cadeira da escrivaninha de estudos. A cadeira do colégio era dura e desconfortável. Elucidei o motivo: se fosse uma cadeira agradável, dormiríamos de tédio. As aulas eram chatas; a convivência com a molecada, porém, era massa! Em casa, meus pais me deram uma escrivaninha com cadeira para estudar. Eu vivia trabalhando nela. Estudava, guardava meus documentos (mapas de tesouros, cartas roubadas dos vizinhos, livros de sacanagem, presentes de garotas) e fazia minhas experiências biológicas. Eu adorava injetar água sanitária em gafanhotos e também colocar escorpiões para lutar contra lacraias. Fazia tudo isso na escrivaninha, meu palco de outras dimensões. Contudo também gastava horas em sua cadeira dura e desconfortável estudando coisas que logo esqueci.

A única televisão da casa ficava na cozinha. Podíamos sentar nas desconfortáveis cadeiras da mesa ou numa das três deliciosas cadeiras de praia que meus pais acomodaram ali. A televisão só era ligada a noite, assim meu pai ocupava uma cadeira e a minha mãe a outra. Eu, o filho mais velho, deveria ocupar a terceira.

- Deixe sua irmã sentar. - Dizia meu pai. - Ela é menina!

Isso é prerrogativa? Pensava, com raiva. Quando minha irmã não estava, eu devia deixar meu irmão se sentar para ver tv.

- Ele é menor que você. - Dizia minha mãe. - Mais fraco.

No natal, meu pai perguntou o que queríamos de natal. Entre brinquedos, bicicletas e bugigangas infantis para os meus irmãos, sentenciei:

- Uma cadeira de praia para assistir tv. - Apontei para a cadeira que ele se sentava. - Só minha.

Ganhei a cadeira; era um presente muito mais barato que qualquer brinquedo. Sentava-me na cadeira a qualquer hora. Lia a tarde inteira. Deixava meu livro aberto numa página específica e quando voltava o encontrava intocado. Minha cadeira era meu cofre-forte, meu reino.

Um dia entrei na cozinha e todos já estava sentados, vendo tv. Minha cadeira permanecia vazia, à minha espera. Espreguicei-me sobre o assento e larguei a bunda de uma vez. Alguma coisa aconteceu e eu me espatifei no chão!

Antes de entender qualquer coisa escutei um riso fino do meu irmão.

- O que você fez? - Gritei do chão.

- Otário. - Falou. Dizia poucos palavrões ainda e esse era um deles. Ele havia retirado a madeira que prendia o assento. Pura molecagem. Levantei-me dolorido e apliquei a devida porrada em meu irmão. Fui julgado e condenado pelos meus pais a tomar uma surra de punição pela minha atitude. Mundo injusto.

Cresci. Vivia pegando os sofás velhos que os parentes jogavam fora e os colocava no meu quarto. Adorava ficar sentado lendo revistas em quadrinhos e livros de ficção. Até comprei um abajur para botar ao lado da cadeira e ler melhor à noite. Eu adorava o visual lúgubre.

O que ganhei de presente da namorada? Uma cadeira.

- Para você ficar sentadão, lendo seus livros. - Ela disse. - Agora você não vai espirrar. Essa cadeira é nova. - Vi que o presente era para encerrar sua implicância contra meus velhos sofás. Não expliquei, mais uma vez, que eu espirrava pois os livros é que eram velhos e não as cadeiras.

A nova cadeira era realmente espetacular. Parei, realmente, de espirrar, mas foi porque comecei a ler outros escritores, mais recentes, com livros mais novos. Normalmente adormeço quando estou sentado e relaxado. Sonho com o livro. Quando acordo tenho sempre que voltar algumas páginas, para saber se o que li estava realmente no livro ou foi minha imaginação.

Um dia fui comprar uma cadeira com rodinhas para sentar ao computador. Passei na frente de uma loja de móveis usados e vi uma grande e ultrapassada cadeira do Senado Federal. Ela fazia parte de um lote comprado num leilão de móveis velhos. Pedi para trocar o velho couro e a comprei. Eu passava dias sentado na cadeira lendo histórias na internet, apoiado nos braços laterais.

Só saia da cadeira com rodas por um motivo: cocô. Lia e escrevia o dia inteiro. Levantava para ir ao banheiro e sentava na privada.

A privada.

Lembrei da época de criança. Após o estágio da alimentação, o que eu mais gostava de fazer era defecar. Primeiro nas fraldas e depois no penico. Logo passei para a privada dos adultos. Como eu não sabia quando o cocô viria, ficava horas esperando sentado. Para matar o tempo comecei a folhear revistas infantis, da Mônica e do Cebolinha. Lembro que decifrei muitas palavras apenas relacionando as letras aos desenhos. Minha alfabetização aconteceu na privada. É por isso que até hoje gosto de ler durante uma cagada.

Na privada tenho toda a privacidade do mundo. Ninguém vai me pregar uma peça enquanto eu estiver trancado no banheiro. Mesmo que eu tenha medo que, um dia, algo cutuque meu cu de dentro do vaso sanitário. O susto mais apavorante, na minha opinião.

Muitas idéias saem de cabeças pensativas com bundas sentadas em privadas. Sou assim também. Chamo as idéias que tenho no banheiro de "pensamentos caganiais", idéias geniais durante a cagada. Quero comprar um laptop para escrever sentado no trono.

Sempre adorei cadeiras; a melhor cadeira entre todas sempre foi a privada. Demorei a perceber a maestria simplória do trono de cagar. O mesmo local serve para pensar, trabalhar, descansar, comer - se quiser, claro - e cagar. Todas as necessidades da vida. A cadeira suprema.

fin

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