Eu me amo

 

Eu me amo.

É verdade. Adoro a mim mesmo. Cheguei a essa conclusão há pouco tempo. Na verdade, foi uma percepção de várias situações.

Numa festa qualquer, se eu não estivesse tremendamente a fim de curtir alguma coisa, simplesmente caia fora. Nunca ficava para ver no que ia dar.

- Mas tá cheio de mina.

- Eu sei. - Olhei em volta. - Mas nada que me interesse.

- Espera, mané. Sempre sobram as de fim de noite.

- Inté.

Sempre preferi ficar comigo mesmo, cultivando minhas manias. Sou cheio de manias e especialidades. Entendo de tudo um pouco. A vida inteira acumulei conhecimentos inúteis.

- O que você sabe fazer?

- Na verdade, nada. Sei pouco de muito mas muito não sei nada.

- Então você é um imprestável?

- Na verdade, não. Presto para várias coisas. Coisas inúteis, é verdade, mas divertidas.

Vivo num ambiente onde apelido tudo em minha volta. Estou agora sentado na Cadeira do Quartinho, escrevendo.

- Li aquela parada que você escreveu.

- É?

- Legal, ri pra caralho daquele troço!

- É? - Riu? Como assim? A história era para ser trágica! Meus leitores não me entendem.

Registro minhas origens históricas numa árvore genealógica que publiquei na Internet. Faço contato com primos distantes em terras litorâneas.

<Eu_escreveu> Oi, prima. Sou seu parente distante, vamos nos conhecer. Procure meu nome no sítio de busca e entre na minha página. Veja quem é seu parente lá. Beijos.

<Prima_escreveu> Oi, primo. Fui lá e me encontrei. Mas eu não sou neta do tio que você colocou lá. Sou filha do neto daquele sobrinho que está como meu irmão. Beijos

<Eu_escreveu> Tá, tá. Depois arrumo. Como é você? Branca ou preta? Hehehe.

<Prima_escreveu> O que você quer dizer com branca ou preta? Por acaso você é um desses racistas irracionais que não enxergam a verdade???????

<Eu_escreveu> Calma, prima, eu só disse aquilo para puxar papo. Sei lá. Hehehe. Desculpe.

<Eu_escreveu> Oi, prima. Você recebeu minha mensagem anterior? Beijos.

<Eu_escreveu> Prima?

Acho que os outros me olham! Sempre sou atendido primeiro.

- O próximo é você?

- Ainda não. - Respondi.

- Qual seu problema?

- Rebinboca de parafuseta.

- Isso é fácil. Vem comigo.

Certa vez fiquei longe de mim. Não me encontrava. Odiei.

- Oi, tudo bem.

- Não. - Respondi. - Não há sentido na vida.

- Claro que há.

- Qual é?

- Você não sabe?

- Não! Qual é o sentido da vida?

- É amar a si mesmo? - Hein? Basta fazer o que faço sempre? - Duas ou três punhetinhas são o suficiente?

Punhetinhas?

- O sentido da vida é a masturbação?

- Num mundo sem destino, o direcionamento do próprio pau já é uma vantagem.

O amor próprio pode ser muito solitário.

Viva a mão-de-obra especializada.

Eu me amo, mas me amo mais quando sou amado.

fin

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