un mijon de vinos en Buenos Aires

 

- Beberei vinho argentino mais barato que refrigerante! - Anunciei aos amigos. A patroa ganhou uma promoção no serviço e aterrisamos na capital portenha com uns trocados no bolso e muita sede.

Na esquina do hotel, que também era por conta, encontramos uma adega. Os preços não eram tão baratos como propalavam, compramos apenas El vino del fin del mundo da Patagônia por 18 pesos. Perambulamos até a calle Florida, com suas centenas de lojas e estátuas vivas. Encasquetei com um gárgula e só parei de provocá-lo quando piscou. Não gostou que esquinchei entre dentes o vinho em seu rosto.

- Preciso dum banheiro.

- Servicio. - Corrigiu a patroa. - Em espanhol.

Pensei na similaridade entre los servicios e serviço em português:dois lugares de merda. Entrei num café.

- Donde estan los baños? - Pedi.

Solo para los clientes. - Resmungou o estranho mestiço de índio queshua com sueco. Estiquei uma moedinha e apontei uma balinha de hortelã. Já na condição de cliente fiz meu primeiro xixi em Buenos Aires.

Descobri que existiam mercadinhos coreanos que vendiam os vinhos bem baratos. Comprei logo três. Ficou também em dezoito pesos. Estiquei uma nota novinha de vinte. A coreana do caixa a examinou minuciosamente, olhando desconfiada para mim.

- Hay problema? - Perguntei. 

Ela rosnou. Me assustei. Minha mulher caiu na gargalhada.

Que passa

A coreana gesticulou muito e soltou algumas frases em mau castelaño. Parecia conferir o dinheiro.

- Ok. - Tentei sorrir. - But don´t bite me. - Pedi.  

Mamei lentamente os vinhos enquanto passeava pelos pontos turísticos. Os argentinos me encaravam com surpresa quando percebiam no copo plático.

- No se puede beber por las calles? - Perguntei para o único mendigo bebun que vi nas ruas da cidade. 

- Mucho cuidado! - Ele tinha olhos alarmados. -  La policia prende los borachos. - Olhou para os lados, abriu uma garrafinha de metal e deu um gole. Fiquei curioso sobre o conteúdo mas a boca ressecada e roxa do sujeito me dissuadiu de pedir um gole. - És perigoso.

Dispensei as garrafas vazias nos lixos no subte, ou metrô. Em cada vagão havia pessoas lendo. Livros, principalmente. Adorei saber que a literatura é prestigiada. Até tirei uma foto no Café Tortoni onde Lorca fazia as refeições. Mesmo lá consegui esconder uns goles de vinho dentro das sacolas de bugingangas, senão pagaria o triplo do preço pelo copo, algo como a metade do seu preço no Brasil.

- Quero mijar. - Anunciei à patroa. Estávamos no meio da avenida 9 de julho, a maior do mundo, com sete pistas para cada lado, além das duas ruas marginais, ambas de três pistas. O lugar era tão largo que cronometrei o tempo do semáforo pois não acreditava que desse para atravessar tudo sem ser atropelado.

- E eu com isso?

- Se não arrumar um banheiro, vai ter que lavar minhas calças.
Ela apontou uma frondosa árvore. O problema é que estava cercada de estudantes que andavam de um lado para outro com suas roupinhas da novela mexicana Rebelde. Segurei-me bravamente até o banco da praça, ajeitei-me às suas costas e me aliviei entre as plantinhas do lugar.

- Não sabia que vinho dava tanto mijadouro. - Resmunguei aliviado. 

- Os casacos ajudam, impedem de suar, todo o líquido sai apenas na urina. - Explicou-me. - Mas beber uma garrafa a cada hora ajude bastante.

- É que o vinho tá mais barato que refrigerante... - Subi o zíper e enchi novamente o copo. - E são vinhos argentinos...  - Justifiquei.

Continuamos nossas andanças pela cidade sempre acompanhados de uma sacolinha com uma garrafa e copinhos plásticos nas mãos. Eu bebia como se estivesse numa festa boca-livre. Assim que uma garrafa ficava seca, achava um mercadinho coreano e me abastecia. Três ou quatro pesos por vinho. Algo como um real e oitenta centavos. Variava a marca tentando beber ao menos uma de cada. São mais de quatro mil tipos.

 - Tá com fome? - Perguntei depois de uma caminhada de 19 quarteirões entre um bazar em Palermo e um café em XXXXXXXXX.

- Que tal umas empanadas? - Ela queria comer os tais pastéis.

- Ok. - Achamos uma cantina. - Mas vou acompanhar com cerveja. É que tô com sede depois de tanto vinho.

Tive que me espremer entre um poste e uma esquina para dar a mijadinha da cerveja. Esqueci de usar o banheiro da cantina.

- Você precisa se controlar. - Bronqueou. - Tá parecendo cachorro demarcando território. Faz uma mijada a cada esquina.

Tive que rir. A cada esquina também encontrava um cocô de cachorro. Haviam centenas de cães que aguardavam seus donos em canis improvisados nas praças. A fedentina e a algazarra eram enormes. Os cuidadores de perros, contudo, ganhavam uma boa grana.

Alugamos bicicletas e visitamos la Bonbonera. Não fui revistado, então consegui virar uns copos sentado nas cadeiras do estádio, olhando a grama verdinha e imaginando quanta pressão os torcedores do Boca faziam sobre os adversários. A grossa divisória de vidro impedia a passagem, mas não as expressões enfurecidas. Logo depois passamos pelo Caminito, uma favela estilizada e com dançarinos de tangos nas estações de trem, e pedalamos até o Puerto Madero.

 - Pomelos, tão belos, pomelos... - Cantei a plenos pulmões. O vento da bicicleta enxugava meu suor. Parei ao lado da ponte com um cavalo de pau. - Hora do piquenique!

Sentamos num banco em frente ao rio, apreciando o sol perto do horizonte iluminando as águas suaves que desembocarão na maior baía do planeta.

Descasquei pomelos, ou grape-fruit, arranquei os topos e as esprememos diretamente na boca. O líquido rosa e ácido, no frio, é mais refrescante que cerveja gelada na praia. Ambos enchem a bexiga.

Já voltávamos para devolver as bicicletas quando uma crise mijadoira me atingiu como um soco. Senti que teria segundos antes de soltar o primeiro esguicho de xixi. Segundos era o que eu gastava apenas para abrir o cinto, depois a calça, depois a malha que usava por baixo e só então arrancar o peru de baixo da cueca, tudo isso já escondido no local do crime. Um processo demorado, inda mais quando a tremedeira da vontade de urinar fazia as mãos suadas perderem a habilidade e não conseguirem desatar o nó do moletom.

O excesso de urina escorreu solto pelo pinto. Só quando a bexiga amoleceu um tanto é que consegui me segurar novamente. Tentei apertar a cabeça do pau mas ele tava muito abaixo das roupas e não o achei. Notei, então, a mancha de urina que se alastrava ao redor do zíper. Era escura e uniforme. Não esperei para saber se seria fedida.

- Vamos continuar andando de bicicleta. - Berrei para a esposa. - Lá na frente tem um parque, tá no mapa.

- Mas já são quase seis horas! - Consegui ouvir enquanto me distanciava, pedalando furiosamente na esperança de secar aquela vergonha com o vento. Acelerava no pedal e levantava a pélvis para colher mais ar. Minha mulher depois contou que eu parecia estar querendo melhorar a aerodinâmica com o pênis.

Descobrimos que o parque havia sido inaugurado há pouco, era ainda bem rústico. Ainda assim possuía um binóculo acionado por moedas sobre um agradável mirante de madeira. Me senti no exterior. Apenas alguns momentos depois é que lembrei que não estava no Brasil. Eu estava relaxado, costumava bobear nessas horas. Puxei uma nova garrafa de dentro da cestinha da bicicleta.

- Um brinde. - Beijei minha esposa. - A esta bela cidade. - Bebemos e gastamos uns minutos apreciando o brejo repleto de ramos floridos de junco, com roedores e garças por todos os lados. Um gavião atacou sua presa e a destroçou ao nosso lado. O ciclo da natureza. Toda a bela vista estava moldada pela cidade por trás do parque num quadro surreal e magnífico. O sol que morria ao fundo tornava o ambiente mais suave, à meia luz. Eu me sentia apaixonado.

- A garrafa já acabou? - Surpreendeu-se a patroa.

- Não se preocupe, tenho outra...

- Mas você já matou esta garrafa?

Pensei em explicar, mas vi ao longo da trilha dois guardinhas. Iriam nos expulsar, já passava da hora de fechar. Resolvi gastar o tempo final naquele belo lugar fazendo um xixizinho necessário.

Decidimos levar umas pizzas para comer no hotel depois de devolver as bicicletas. Não gostamos muito da parillada, as carnes assadas eram fuleiras, e estávamos fartos de tartas y tortas.

- Não tá pensando em dormir sem tomar banho, né? - A minha higiênica esposa provocava minha limpeza. Levei uma garrafa para o banheiro e me ajeitei no vaso sanitário. Queria fazer o que não tinha feito durante todo o dia. A parede fria, muito perto do vaso, encostava na lateral do meu corpo que já estava nu para o banho. Apoiei-me meio de lado.

- Sabe, - Gritei do banheiro. Eu queria conversar para relaxar. - o show no Senor Tango é coisa de  turista chique, mas eu gostei. - Ajeitei-me melhor sobre a perna esquerda. -  Gostei do sentimento de patriotismo dos argentinos, uma coisa bonita de se ver.

- Ahan. - Ela gritou do quarto.

- Quando fomos ao cemitério da Recoleta eu quis mijar no túmulo de Evita, como fazem no túmulo do Jim Morrison em Paris. Só desisti depois de vinte minutos, a cada instante chegava alguém.

- Então foi por isso que demorou tanto. Pensei que você estava rezando. - Ela pirraceou. 

Escutei um rangido, depois uns estalos e de repente o mundo rodou. Ou melhor, eu rodei e para o chão. A privada desprendeu-se por causa do meu peso de um só lado e caiu, mantendo-se presa pelos canos. Eu despenquei nos ladrilhos gelados. Miraculosamente o produto não vasou, embora tenha sido remexido como um milk-shake.

- Que barulho foi esse?

Pestanejei antes de responder.

- Que tal sairmos para buscar uns vinhos antes de dormir?

Ela sacou que algo estava errado. Tomou conta da situação ao seu modo.

- Certo, mas faça xixi antes de sair. Para não mijar por toda a cidade.

Pestanejei novamente.

- Farei na volta, confie em mim. - Sai do banheiro já vestido e a enlacei com o braço. - Mas antes vamos pedir um pedreiro na recepção do hotel.

fin

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