Ando só
Caminhava eu, feliz e contente, pelos intermináveis corredores da Universidade quando, não mais que de repente, avistei dois estudantes de Direito. Sei que eles eram deste curso pois usavam aquela tão manjada camisa donde se vê escrito na frente: Seu namorado faz errado? E atrás: Eu faço Direito. Que blusa idiota! -Você peidou? -Não. -Peidou sim. -Peidei não. -Peidou, confessa! -Não peidei não, pô. -Seja honesto. Peidou? -Tá bom, tá bom. Peidei, e daí? -Mentiroso, quem peidou fui eu. -Falei que não tinha peidado. Continuei meu caminho, pasmo. Será este o futuro da Jurisprudência do meu amado país? Para onde iremos com este nível de sabedoria parlatória. Pois bem, continuei no meu caminho. No meu caminho continuei.
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Encontrei uma turma de colegas papeando sobre a vida alheia. Juntei-me à turma, cumprimentando a todos gentilmente. -E aí, galera.- O assunto era sobre um conhecido que, por um descuido inaceitável nestes tempos de AIDS, engravidou uma garota. -Ele fez amor com a menina uma única vez e ela embuxou. Foi pura falta de sorte.- Defendeu ao futuro pai uma garota meio afins dele. -Ele fez o quê?- Revoltou-se o Leo, o maior machista chauvinista que eu conheço. Um cara gente boa. -Ele engravidou a menina.- Esclareceu a apaixonada. -Não, antes. Você disse que ele fez o quê?- Percebi que o Leo iria iniciar uma palestra sobre os direitos e deveres do Macho. -Que ele fez amor.- Respondeu solícita a garota. -Este é o problema. Ele é um simples homem. Se ele fosse macho mesmo não teria feito essas coisas. Esse negócio de fazer amor é coisa de bicha. Se ele tivesse só comido ela, tenho certeza que nada aconteceria. -Deixa de ser burro, Leo. Comer e fazer amor é a mesma coisa.- Uma outra garota, indignada, entrou na conversa. -Não é nada. Comer é o que nós, machos, fazemos. Fazer amor é coisa de bicha. Só falta vocês me dizerem que ele comeu a boceta dela. Comer boceta é fazer amor, e vocês já sabem, fazer amor é coisa de bicha. -Que absurdo! E como você faz sexo? -Eu como o cu. Não tenho problemas com filho, é mais apertadinho e não preciso ficar beijando na boca. Falta de higiêne.- Ele estava com cara de nojo. -E eu não faço sexo. Eu dou um comão. Fazer sexo é coisa de gay. -E se a mulher enrustir o buraquinho?- Perguntei eu, na minha infinita ignorância. -Porrada! Todas as garotas começaram a brigar com o Leo. O barraco estava armado. Segui por meu caminho, solitariamente, me perguntando se eu era gay por gostar de fazer sexo.
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Topei com um colega meio bobão, mas uma boa pessoa. Ele estava deixando o cabelo crescer. Eles estavam, segundo ele, elegantemente desalinhados. Foi me explicando enquanto andava. -Quando saí de casa peguei uma escova para arrumar esta bagunça aqui em cima. Coloquei no bolso mas esqueci de deixar no carro, quando estacionei. Assim, para não ficar passeando com ela por aí, guardei aqui dentro das calças.- Botou a mão em cima do zíper, demonstrando que ela estava em cima da cueca. Caminhando e papeando e seguindo o corredor, avistamos uma roda de conhecidos que estavam sacaneando-se mutuamente, naquela gentileza. Um deles apalpou a bunda de outro. -Tem pente aí? -Não, mas tenho escova.- Projetou a virilha para frente. -Pega aqui, ó. Neste momento abro um parênteses para explicar a origem desta brincadeira. Na década de 50, nos anos dourados, os rapazes costumavam guardar um pente marrom e pequeno no bolso detrás das calças, para manter o cabelo lambido. Já nos anos 70, com o black power, para se possuir o cabelo armado de acordo com a moda fez-se comum o uso da escova. Neste processo histórico de mais de 40 anos apareceu este tipo de gozação, inerente aos brasileiros. Um pergunta se o outro tem pente, passando a mão em sua bunda e este responde que tem escova, oferecendo o pau para o primeiro pegar. Bem entendido. Eu e meu companheiro nos unimos à gentalha, saudando a todos. -Fala, galera!- Alguém respondeu. -Falar o quê?- O indivíduo que foi a vítima da brincadeira, para descontar, colocou a mão na bunda do meu colega de percurso e fez a fatídica pergunta: -Tem pente aí? -Não, mas tenho escova.- Ele abriu o zíper e a dita cuja encurvou-se para fora, ficando dependurada. -Pode pegar. Silêncio. Bati a mão na cara e ri. Saí estrategicamente pela esquerda.
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Interrompi meu percurso para beber um golinho de água. Escutei uma conversa ao lado do bebedouro em que sorvia a substância líquida. Um cara de mais ou menos um metro e noventa, fortão, loiro e de olhos azuis encurralava com uma mão na parede, na tradicional pose de sedução, uma baixinha feiosa, cabelos alisados e dentes tortos. Vi tudo isso com uma rápida esgueirada de olho. -Por que você não quer sair comigo? -Não gosto de você. -Não gosta do meu visual? -Não é isso. -Do meu papo? -Você está com mau hálito, mas também não é isso. -Do que então você não gosta? -De você inteiro. -Como assim? -Você é idiota, vil, pernóstico, burro, prepotente, desinteressante, chato, metido, irritante, galinha, desrespeitoso, ignorante, pornográfico, vil, tedioso, pervertido, claudicante, ranheta e tem caspa. -Mas meu carro é lindo. -Esqueci de besta, seu babaca. -Mas você tem que sair comigo. -Por quê? Sim, por quê? Eu já devia ter ingerido um litro de água, mas continuei bebendo para ver, ou melhor, escutar que fim levaria toda aquela retórica. -Porque eu apostei com meus amigos que ficaria com toda as mulheres da nossa aula de Economia Doméstica e Culinária. -Agora é que eu não saio mesmo. -Eu apostei muito dinheiro. -Quanto? Ele disse o montante, era realmente muito. -Então, vai sair comigo? -Não. -Eu te dou 25 %. -Nunca! -50%. -Deixa ver... está certo. -Vai sair comigo? -Não, só vou passear de mãos dadas com você na frente dos seus amigos. -Mas eu não quero romance, apenas completar a aposta. -Eles vão pensar que você ficou comigo. -Eles vão pensar que estou namorando contigo. -Não é isso que você quer? -Claro que não. Eu nunca ficaria com você, só estou fazendo isso pela aposta. -75%. -O quê? -Com este insulto o pagamento aumentou para 75%. -Ficou louca? -Ou você prefere pagar tudo para os seus amigos e ainda ter que dizer que não foi capaz de me ganhar. O rapaz ficou pensando. Eu fiquei bebendo. As minhas calças já estavam apertadas de tanta água na barriga. -Contar a verdade é que seria humilhante. Está bem, 75%. -Para de falar senão eu aumento. -Mas, pense bem, por este dinheiro vai ter que acontecer alguma coisa a mais. -O quê? -Você sabe o que eu quero dizer com isso. -O que você quer dizer com isso? -Não se faça de idiota. Hum, até que você é gostosinha. -O que tem a ver entre eu me fazer de idiota e ser gostosinha? -Já estou me cansando desta enrolação. Vou ser curto e grosso. Vai dar ou não vai dar? Engasguei, bebi um pouco de água para limpar a garganta. -Você quer me pagar para eu transar contigo? -É isso mesmo, meu bem. -Estás achando que sou algum tipo de prostituta? -Quem, eu? Claro que não. Mas é muito dinheiro por um simples passeio. -Eu não vou transar com você por dinheiro. -O que vamos fazer, então? -Preste atenção.- A baixinha melou a voz. -Você me dá só 50% para eu passear contigo, mas eu não vou transar com você por dinheiro.- Ela escorregou a mão para o traseiro do rapaz. Puxou. -Para transar com você eu faço de graça. Eles saíram de mãos dadas para procurar os amigos dele. Eu saí com a pança abarrotada de água, balançando, parecendo um saco plástico quando se compra um peixinho dourado para o aquário de casa. Mas é por situações como a deste casal que eu sempre penso: como as mulheres fáceis são mais fáceis de comer que as difíceis.
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Desviei de meu percurso à cata de um banheiro. Urgentemente! Encontrei um que não estava quebrado. Puxei o bingolinho para fora e relaxei. Ah... tem coisas na vida que são extremamente prazeirosas e não damos o devido valor. Dar uma mijada é uma delas. Primeiro a dorzinha, depois o arrepio e finalmente a alegria plena e total. Eu estava tão distraído que me encurvei para frente, encostando a cabeça (do pescoço) nos ladrilhos acima da torneira do mictório. Achei engraçada aquela posição. Lembrei de já ter visto outros homens urinando do mesmo jeito, quando estavam muito apertados. Pensei com o botão da minha calça, o único que tenho: este ladrilho está deveras desconfortável para apoiar a testa de um homem em um momento tão sublime da sua vida. Fechei a torneirinha, balancei e senti o último e inevitável pingo cair na cueca. Para resguardar os meus companheiros de mijada da frieza do azulejo e proporcionar-lhes maior conforto na hora da urinada, colei o chiclete que mastigava exatamente no local aonde eu havia encostado a testa. Assim, o próximo incontinenti urinário iria deliciar-se com a mordomia de encostar a cabeça (do pescoço, bem entendido) sobre a superfície macia do chiclete que eu havia ali pregado. Fico imaginando se existe outro ser no universo tão bondoso quanto eu sou para com os da minha raça.
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Voltei ao meu caminho. Meio cansado, meio com preguiça, sentei-me à beira da estrada para ver mulher bonita e também mulher casada. Para minha infelicidade o que vi foi um grupo de alunos da matemática. Sei que eles eram futuros matemáticos pois todos tinham mais de seis canetas e oito lápis no bolso da camisa, junto com a calculadora HP 7200. Esta máquina é capaz de calcular até o movimento dos astros ao redor da Terra apenas com os dados da temperatura atual. Um abuso de tecnologia. Um dos estudantes era mais humilde e portava uma obsoleta HP 7050, que serve apenas para fazer todos os cálculos necessários para se construir um ônibus espacial. Coitado. -O que é um pontinho prateado na grama? -Sei lá. -Uma formiguinha de aparelho. Eles contavam piadinhas, cada uma mais infame. -Vocês sabem qual a diferença entre o preto e a pilha? -Dão. -A diferença entre o preto e a pilha é que a pilha tem um lado positivo.- Risos. -E a diferença entre o preto e o câncer? -Também dão. -O câncer evolui.- Mais risos. Um grupo de estudantes de Angola passou pelo corredor. -Agora de português.- Mudaram de tema, mas não de assunto. -O português chegou na loja de eletrodomésticos e perguntou "você tem televisão colorida?" e o vendedor "temos sim senhor","então me dá uma vermelha, ora pois". -Tem aquela do português que chegou no bar e perguntou para o garçon, que estava de lado passando "onde fica o banheiro?", o garçon disse "no outro lado". O português foi para o outro lado do garçon e perguntou "onde fica o banheiro?". -Vocês conhecem a do gambá que se apaixonou por um peido?- Risos. -Dão entendi.- Falou o rapaz de nome Cid. -E a do cachorro manco que foi mijar e caiu?- Mais risos. -Dão entendi de novo.- Falou de novo o Cid. -Vocês sabem o que um testículo disse para o outro? Não? Ele disse: vamos trabalhar que o chefe está duro.- Gargalhadas. -Também dão entendi.- Anunciou o desentendido Cid. -Cid, você gostou da onça?- Argüiiram ao Cid. -Onça, que onça? -Aquela pintada que eu te dei.- Todos quase morreram de rir. Menos o Cid. -Dão estou entendendo nada.- Resmungava o Cid. -Pô, Cid, você está parecendo o terceiro sapo voador. -Como é que é?- Perguntou o Cid. -Três sapos começaram a voar. Um deles perguntou para os outros "ué, sapo voa?" e o outro respondeu "não". Os dois sapos cairam. O terceiro que ficou voando virou e falou "dã, não entendi". -E daí? O que essa estória tem a ver comigo?- Os outros se impacientaram e foram embora reclamando do Cid, dizendo que ele era muito burro. Pobre Cid, abandonado pelos falsos amigos. Eu me solidarizei com ele. Qual o problema se ele não estava entendendo as piadas? Isso não quer dizer que ele fosse burro. Nem todos entendem estes tipos de piada. O Maguila, por exemplo.
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Levantei-me para dar continuidade na minha eterna caminhada pelos infinitos corredores na universidade. Vi, de soslaio, um homem saindo do banheiro que eu estive. Ele cutucava e puxava alguma coisa na testa, perto da raiz do cabelo. -Se eu pego o filho da puta que colou aquele chiclete no banheiro, eu mato. Não deixo nem os ossos do desgraçado. Ele foi andando na minha frente, sempre reclamando do infeliz que colou o chiclete no banheiro. -Agora vou ter que raspar o cabelo para tirar este chiclete nojento.- Eu fiquei com pena do desafortunado senhor vítima de tão vil brincadeira. Tentei consolá-lo mesmo sem conhecê-lo. -Ei, amigo, por que você não raspa somente onde colou o chiclete. Só na parte da frente da cabeça. Você é meio gordo e pode se disfarçar de lutador de sumô.- Disse eu, cortês. -Ah, vai se foder você também. Credo, quanta violência existente no ar. Onde foi parar o amor pregado pelo Senhor dos Cristãos? Tanta bronca por causa de um chicletinho colado no cabelo, que besteira!
*** Andando só continuei. Ainda bem, pois é um saco ter que ficar sincronizando o passo com a pessoa que anda ao seu lado. Assim é a vida, sempre temos que acelerar ou freiar o passo, para acompanhar os ritmo dos outros. Prefiro andar só. Vi a Cinthia. Olhei para o relógio atentamente e fiquei sacudindo-o, como se ele estivesse quebrado. Eu simplesmente tentava disfarçar e passar por ela sem vê-la e, com isso, não precisar cumprimentá-la. Ela veio direto e falou comigo. -Oi. Como vai você? -Bem, bem.- Jamais incorreria novamente no erro de perguntar como ela estava. Da última e única vez que fiz isso fiquei quarenta e três minutos escutando sobre o problema que ela teve com o cabeleireiro do seu poodle, a Indy. Eu realmente não tinha nada contra a Cinthia, mas ela era muito chata. E o pior, era meio afins de mim. Ela até que era bonitinha, jeitosinha de corpo. Mas era uma catástrofe quando abria a boca. Só saia bobagem. Se não era bobagem, eram coisas que me interessavam tanto quanto o tempo de gestação de um ornitorrinco. -Você já leu o texto paleográfico sobre a investidura medieval da matéria que fazemos juntos?- Neguei com a cabeça, quanto menos eu falasse melhor. Não abria espaço para ela discursar sobre a morte da bezerra. O texto que ela citou era do meu interesse e muito difícil de ser encontrado, porém, em hipótese alguma, eu o pediria emprestado para ler. Ela poderia entender como um convite. Aliás, quando a conheci, pensei em convidá-la para sair. Desisti depois de sete segundos e antes de ela completar a segunda frase. -Sabe, hoje eu tenho que ir trabalhar.- E eu com isso? Apenas sorri. Um sorriso amarelo que dizia "me deixa em paz" mas ela não sabia ler sorrisos, só textos paleográficos. -Você sabe meu sobrenome? Qual o seu sobrenome?- Eu disse o meu sobrenome. -O meu sobrenome é Madeira.- Ah, que legal! Eu não conseguiria sobreviver neste mundo cruel sem saber desta preciosa informação. Madeira. Vai ver é por isso que ela tem esta cara de pau. -O que você vai fazer agora? Por que está andando tão rápido?- Eu não vou fazer nada e estou andando rápido para ver se fujo de você. -É que eu tenho que fazer umas coisas por aí...- Ela era totalmente inconveniente. Mesmo com toda minha frieza, ela não notava meu menosprezo por ela. E também era burra. Vinha com um papo sem graça, dando mole, querendo que eu desse atenção para ela. Anta. Se ela viesse logo e, na chincha, dissesse que queria me dar, sem rodeios nem lero lero, com certeza conseguiria atrair a minha atenção. Mas não, ela devia estar querendo romance, poemas, palavras de amor. Já acho que faço muito respondendo às suas perguntas ignóbeis. Olhei para ela. Até que eu daria um comão, parafraseando um machista amigo meu, sem remorsos. Mas somente num lugar remoto e sem chances de encontrar algum conhecido. E deixaria bem claro que não haveriam perspectivas de qualquer tipo de relacionamento. Seria só sexo, e apenas quando eu quisesse. -Posso andar com você?- Já está andando mesmo, fazer o quê? -Eu vou me encontrar com uma pessoa.- Viva, assim você larga do meu pé. Ô mulher chata! -Ah, ele está ali. Oi, meu bem. Este é um colega de uma matéria. Este é o meu noivo. Nos vamos nos casar.- Ela me apresentou ao infeliz. Apertei a sua mão e fiquei com vontade de desejar meus pêsames. O cara tinha cara de panaca, mas provavelmente seria santificado depois de morto. O santo da paciência.. -A gente se conheceu a um mês, mas foi amor à primeira vista, né amor?- Ele seguia a minha tática: quanto menos falar com ela melhor. -A Lua de Mel será uma viagem ao redor do mundo e quando voltarmos vamos morar na casa que papai está construindo. Doze quartos, piscina, sauna, campos de futebol e tênis, garagem para oito carros e outras coisinhas. Eu já escolhi os quatro empregados que vão trabalhar para a gente.- Nossa, eu sabia que ela possuía uma boa condição social, mas não sabia que era tanto. Ela se virou para o namorado. -Vamos meu bem, o motorista já está esperando. Hoje você pode levar a Indy para passear para mim? Antes de ir andando de braços dados com a insuportável Cinthia, o noivo me fitou com os olhos tristes e divertidos ao mesmo tempo e piscou. Foi a primeira vez na vida que vi duas coisas: um golpe do baú e um carro limosine, onde o futuro casal entrou.
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Mal tive tempo de pensar em como foi bom me livrar da Cínthia, escutei um grito nas minhas costas: Querido! Era uma colega que havia entrado comigo na Universidade, eu para História e ela para o mundo das drogas. -Oi, tudo bom? Como vai você? Que bom!- Ela concluiu que eu estava bem antes de eu abrir a boca. -O que você tem feito? Por onde tem andado? Que saudades!- Eu fazia três matérias com ela, encontrando-a todo dia. Ela estava com saudades de quê? -Estou morrendo de vontade de fumar.- Fumar cigarro ou estas ervas medicinais que fazem os jovens irem de encontro aos deuses do absurdo? -Você não tem cigarro não, né? Preciso arranjar um cigarro.- Eu tinha cigarros, mas antes de eu pensar em oferecer ela já estava em outro assunto. -Você se lembra daquela vez que eu te emprestei dez centavos para você comprar um chiclete?- Não, mas me lembro dos catorze reais que eu te emprestei para você pagar o seu traficante que estava te enchendo. -Pois é, você podia me pagar para eu comprar cigarro.- Enfiei a mão no bolso e tirei uma moeda. Entreguei para ela. -Então tá, tchau!- Tchau! Ela se foi, em busca da tragada perdida e eu fiquei, com a alma ferida. Pobre e desorientada moça. No dia que a conheci, ela deixou escapar que era casada. Eu expressei meus sinceros votos de felicidades. -Que legal.- Ela me perguntou se eu conhecia um fulano que frequentava uma aula conosco. Ela estava querendo sair com ele. Eu, na minha eterna inocência, retruquei: Ué, mas você não é casada? -Sou, mas não estou morta não, viu. Eu ainda divagava pensando com o meu botão, aquele das calças, quando ela passou por mim de novo. Ofereceu uma tragada. Aceitei, nem sei porquê, pois eu tinha cigarros. -Então vai comprar, ô vagabundo! Ela era totalmente destrambelhada das idéias, coitada. Por isso que eu parafraseio o Roger, do Ultrage à Rigor: Para que drogas se existe o sexo?
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fin |
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