A mijada do junkie Tava numa fissura louca por um baseado. Era carnaval. Fazia uma semana que não fumava. Procurei um monte de gente e ninguém tinha nada. Encontrei meu irmão lavando o carro em frente à casa do meu pai. - Pede pro Zé, ai na frente. Ele acabou de chegar. Ding Dong! - O Zé está? Lá vem o Zé. Vinte e nove anos e aparência de dezoito. - E ai, Zé? Belesma? Tem um baseado ai? - Tenho. Hoje em dia todo mundo me dá baseado. Fumamos na casa do meu pai, curtindo o sol no terreno. - Faz tempo, Zé. Tá bem? - Tá sabendo do Risadinha? - Risadinha? - É! Morreu! Fiquei calado. Deveria ser uma grande amigo dele. Eu não tinha idéia de quem fosse. - Do Jeca você já sabe, né? - Continuou. - Morreu queimado. Esse eu sabia. Ele foi meu amigo. - O Remelinha também morreu. Ataque do coração. Trinta anos. - Ficou pensativo. - Outro que morreu foi o Gusinho. - Faço cara de que não o conheço. - O Gusinho, que morava aqui. Era o trafica da galera. Lembro, então, que o Zé andava com os verdadeiros malucos. Eu só conhecia o pessoal do bem: atletas, estudantes, religiosos. Eu mesmo era o único maconheiro. Os malucos amigos do Zé eram viciados em cocaína, maconha, crack, benzina, remédios, anfetaminas, ácidos, estimulantes, xaropes, bolas, álcool e cigarro. Eu também fumava tabaco. Os amigos dele ficaram debilitados. - Sabe o Xumbinho? O irmão mais velho dele matou a mãe a facadas. Quem chegou em casa e viu tudo foi o Xumbinho. O moleque ficou maluco. Que porra de história louca. - A mãe era viciada em anfetamina. Roubava o filho e o pai. Era louca. Uma vez ela comprou uma chave de fenda e desparafusou tudo na casa. Os filho chegou e viu tudo desparafusado, numa casa de dois andares. Fiquei imaginando o trabalho que teve a mulher. Deve ter lhe doído o braço! - Mas como tá a sua vida? - Perguntei. - Eu tô feliz de ter me afastado daquela galera. - Eu sei disso! Você já se afastou há tempos. - Será que ele ainda não havia superado sua época junkie? Havia oito anos que ele não se drogava pesado. - Mas os fantasmas do passado vem te assombrar, não é? - É! Eu quis mudar de assunto, mas sempre voltamos ao assunto em questão: a morte. - Três dias antes de morrer o Jeca veio aqui em casa. Contou uma história antiga, sobre uma vez que ele roubou o meu fragrante. Ele disse ter se arrependido e queria que eu soubesse. Me deu uma parada desse tamanho! - Pelo gesto era pelo menos meio quilo de Maria Joana. - Me deu também cinqüenta pratas. - Dinheiro? - É, dinheiro. Pra pagar a maldade que me fez, foi o que ele disse. Outra história louca! - Então o Jeca era um cara do mal e tava se redimindo antes de morrer. Ele já sabia que iria se suicidar. Ambos sabíamos que o Jeca havia se matado botando fogo no apartamento, pois tinha pegado Aids de uma ex-namorada do Japão - outro viciado que morreu de Aids. - Eu namorei com a prima do Japão! - Disse, tentando dar um pouco de sol àquele papo escuro. Zé me olhou como se não me entendesse. Estava absorto em seus pensamentos macabros. - Como está o resto dessa sua galera? - Vi que não conseguiria sair daquela conversa. - Todos estão morrendo, cara. Todos! - É claro, porra! Era um bando de malucos viciados. Piraram tanto que tinham que acabar na lama. - A gente era amigo desde criança. - Ele não tinha o semblante triste, apenas melancólico. - Descobrimos um bar na 406 sul e íamos lá beber todo dia. Todo mundo muito louco. - Quantos anos você tinha nessa época? - Uns catorze. A gente bebia até não agüentar mais, depois vomitava. Pedimos pro dono do bar colocar uns vasos com pedras para termos onde vomitar. - Vocês bebiam e vomitavam e depois bebiam de novo e vomitavam de novo? - É! A podreira! - Mas que diabo de diversão estúpida era essa? - A sensação de vomitar! Era forte. Depois passamos pra benzina e cepacaína. Eu ainda fiquei vomitando um tempo, mas depois fui pra cocaína e desisti do vômito. Era brincadeira aquilo? Não é sem precedente que seus amigos estavam em pandarecos. - Cara, esse teu baseado é forte. Tô até tonto! - Disse sem explicar que minha tontura era causada na verdade pelas histórias esdrúxulas que ele me contava. - É, é forte. Quem me deu essa parada foi o Jones. Esse eu lembrava. Era um cabeludo bem simpático. - Ele tá esperando dois filhos. Um de cada mulher. - Xi, dançou. E a mulher dele, ficou puta? - Você não entendeu. Ele mora com duas mulheres. - Duas? - É, duas. Acho que elas ficam com ele por causa do bagulho. Cafetão danado. Tinha duas mulheres viciadas em maconha. Não sei se achei legal ou não a situação. - Bem, vou embora. - Disse o Zé. Foi para a esquina da rua, puxou a piroca para fora e começou a mijar num matagal. Eu o segui, mijando também. - Nunca cresceu mato aqui. Acho que era porque muita gente mijava nessa esquina. - Comentei. - É, eu sempre mijei nesse mesmo local. Sempre foi árido, sem mato. Só agora tá crescendo esse matagal. Terminamos as mijadas. Abracei meu velho amigo e nos despedimos. Agradeci o baseado. Ele entrou em sua casa e eu fiquei pensando no mato que crescia no lugar onde mijávamos. Olhei o local com mais atenção. Era idêntico aos demais espaços. Por que ali nunca cresceu mato e, afinal, por que só agora o mato resolveu nascer naquele local? - Acho que a mijada do junkie tá mais limpa nos dias de hoje! - Conclui, voltando para casa. |
fin |
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