Amigos

 Estávamos no Rock'n Roll. Era um bar. Juliano, o dono, era nosso amigo. Bebemos bastante. O que achávamos muito naquela época não é o que achamos muito hoje. Já meio animados, o Xan falou:

- O meu tio tá fazendo uma festa aqui perto. Tem uns uísques lá.

- Vam'bora! - Disse o Vavá, sempre o mais animado.

Era quase na mesma quadra em que estávamos. Encontramos o prédio e subimos ao apartamento. Cumprimentamos os poucos convidados da festa e fomos direto ao uísque. Pegamos a garrafa e fomos pra varanda.

- Essa quadra é massa! Mas muito cara. Eu queria morar aqui um dia.

- Eu queria morar em Nova Iorque! - Falou o Xan.

- Eu queria mais um uísque. - Disse o Vavá.

Servi-o com mais uma dose. Ficamos conversando bobagens. A garrafa secou. O Xan saiu para filar outra garrafa do tio.

- Meu tio falou que a gente bebe demais. Tá regulando a birita.

- Tem cerveja? - Sempre adorei cerveja.

Pegamos uma cerveja cada um e saímos com outra no bolso. Procuramos pelos bares algum lugar para beber e tentar uns beijos com qualquer garota. Paramos num bar muito chique na 113 norte.

- Putz, aqui é foda! Cheio de patricinha!

- Adoro as patricinhas. - Vavá sempre foi o mais eclético. Eu sempre preferi mulheres, ou melhor, garotas com personalidade. O Xan nunca pegava ninguém. Até tentava, mas não era simpático o suficiente.

- Aqui é caro! - Eu disse. Dinheiro sempre foi um problema para mim, mesmo morando num bairro nobre e vivendo com o que havia de melhor.

- É caro, mas relaxa. Tem uma mesa com quatro gostosas logo ali. - Informou o Xan, sempre o mais atento. - Quem é que vai chegar nelas? - Ele nunca abordava as meninas, deixava o trabalho inicial para mim ou para o Vavá.

Olhei para o Vavá. Ele ainda estava consciente. Eu sabia que a bebida o fazia trocar as letras do alfabeto por fonemas árabes. Deixei-o tomar a iniciativa. Embora eu tivesse um papo mais interessante, ele tinha a melhor aparência e alguma outra coisa que fazia as mulheres, ou melhor, garotas baixarem a guarda.

- Oi.

- Oi. - Respondeu uma entre as quatro da mesa.

- Vocês moram aqui?

Elas se olharam. Vi que se incomodaram com a cantada barata do meu amigo.

- Deve ser legal morar num bar. Você pagam a conta ou ela vêm no aluguel?

Risadas. Puxei duas cadeiras, uma para mim e outra para o Vavá. O Xan sentou-se entre uma morena e uma loira. Eu fiquei ao lado da garota de cabelos curtos. Sempre fui louco por mulheres, ou melhor, garotas com o cabelo curto.

Engrenamos conversas variadas. Cada um falando uma bobagem com seu alvo. De vez em quando conversávamos o mesmo assunto, mas sempre objetivando a conquista. O Vavá beijou sua escolha. Ele era sempre o primeiro a beijar.

- Amigão, uma cerva! - Pedi ao garçom. - O que vocês querem? - Perguntei às garotas.

- Já estamos bebendo. - Respondeu a garota que seria minha.

Conversamos amenidades. Fizemos algumas piadas. Sempre tínhamos algumas histórias divertidas para contar. Resolvi beijar meu alvo.

- Venha cá!

- Onde?

- Vem! - Segurei-a pela mão e sai a arrastando. Não sabia para onde a levaria. Só queria tirá-la dali. Nunca gostei de me expor, mesmo para meus amigos.

Levei minha escolha para ver a maquete de Brasília, que o bar onde estávamos tinha debaixo dum balcão de vidro, ao lado do caixa.

- Legal, né?

- É.

- Melhor são seus lábios.

- O que?

- Adoro seus lábios. Parecem uma flor num jardim macedônico. - Segurei seu queixo e a beijei. Pensei: se eu tivesse falado que se parecem com dois rios de sangue num deserto árido, ainda assim a beijaria. A arte da sedução está no momento e na ternura da voz, não na poesia das palavras.

Usei minhas técnicas labiais. Vi que ela gostou do meu beijo. Segurei-a pela cintura, para sentir seu corpo. Ela não estava relaxada. E nem era tão gostosa quanto imaginei. Havia ali uma barriguinha. Não que isso me incomodasse, nunca liguei para isso, mas incomodava a ela. Senti que tirou minha mão de sua cintura.

Beijei-a novamente.

- Vamos voltar para a mesa. - Sentenciei.

Vi que o Xan estava em mais algum papo intelectual com as duas outras garotas. Ele sempre se desculpava por não ficar com as meninas dizendo que gostou da conversa delas. Conversa. Ele nunca tentava beijá-las.

Ficamos ali, dando um tempo, bebendo umas cervejas, dando uns beijos. O Xan logo discutiu com as garotas. Destratou-as. Ele sempre menosprezava quem não partilhava da mesma opinião que ele, mesmo quando as outras opiniões fossem razoáveis.

- O que vocês vão fazer agora? - Perguntei.

Eu sempre abria espaço para sermos convidados para uma festa ou a casa de alguma das garotas. Dava certo, às vezes.

- Nada. - Disse a minha garota, da qual não lembro o nome nem o rosto.

Bebemos até elas decidirem ir embora. O Vavá calculou o valor de cada um na conta, deixando-as pagar algumas de nossas cervejas. Eu sempre admirei essa generosidade dele.

Reabrimos a mesa e mamamos até o bar resolver encerrar as atividades. Pulamos para a mesa ao lado e continuamos bebendo e conversando. O bar ao lado piscou as luzes indicando que iria fechar.

- Amigão, manda a saideira e três copos descartáveis. - Pedi. Éramos sempre eu ou o Vavá que falávamos com os garçons, pois éramos educados. O Xan sempre os destratava.

Enchemos os copos e descemos a rua, falando bobagens e comentando os atributos físicos das garotas que havíamos conhecido naquela noite. Paramos na frente da Wisqueria Berlim.

- Cris, você tá fechando? - Perguntei para o dono do bar, nosso velho conhecido.

- Claro, porra, são três da matina.

- Então desce mais uma cerva! - Eu pediria uma cerveja, qualquer que fosse a resposta.

Ficamos bebendo enquanto os garçons arrumavam o bar para fechar as portas. Levantamos as pernas como ginastas de nado sincronizado para lavarem o chão.

- Quer saber? Eu gosto de vocês. - Anunciou o Vavá.

- Tá bêbado! - Explicou o Xan.

- Eu também gosto de você, Vavá, seu bêbado. - Eu disse.

Barganhamos mais umas cervejas, mas o Cris nos conhecia. Fomos expulsos com os copos descartáveis que havíamos trazido do outro bar devidamente cheios.

- Tem um boteco novo logo ali. Vamos lá? - Explicou o Vavá. Era impressionante como ele conhecia os bares da cidade.

Sentamos no boteco. Era realmente um pé-de-chinelo. Mesas de ferro da Antarctica, apenas cerveja e cachaça como bebida e de salgadinho apenas os empacotados de super-mercado. A presença feminina resumia-se às moscas que zanzavam sobre o lixo.

- Amigão, manda uma cerva! - Pedi ao homem atrás do balcão.

- Tá fechado!

- Ué? Parece que tá aberto.

- Mas tá fechado! O bar é meu e tô dizendo que tá fechado.

- Então porque as mesas tão aqui fora? - Perguntou o Xan.

- Elas ficam onde eu quiser. Tá fechado, porra!

Não entendi a animosidade do homem atrás do balcão. Fui conversar com ele.

- Tudo bem, então me venda três latinhas.

- Então é o cacete. Não vou vender nada e pode ir embora.

Fiquei puto. Pensei em partir pra ignorância, mas estava muito bêbado para ser ignorante. O Vavá se aproximou.

- É foda, né, amigo!

O cara do balcão olhou para o Vavá e simplesmente concordou. Abaixou a cabeça.

- Mas não liga não. Não vale a pena. - Disse o Vavá.

O homem olhou para o fundo dos olhos do meu amigo, aquiesceu, e procurou um cigarro no bolso da camisa. O Vavá puxou rapidamente um cigarro e colocou na boca do cara. Acendi com meu isqueiro.

- Tá difícil, tá muito difícil. - O homem soltou a fumaça. - Não sei o que fazer. - Dava para sentir o sofrimento do cara. Alguma coisa o incomodava muito.

O Xan gritou de fora pedindo a cerveja. Olhei severamente para ele. O Vavá abriu o frezer com a maior intimidade, pegou uma Antártica e a destampou com o abridor que estava amarrado ao balcão.

- Você quer um copo? - Perguntou ao cara do balcão.

- Quero.

- Onde estão os copos?

- Aqui. - O homem pegou três copos. O Vavá nos serviu. Bebemos o primeiro gole. Delicioso. O primeiro gole num bar era sempre delicioso, mesmo que estivéssemos bebendo a noite inteira.

- Cadê minha cerveja? - Gritou o Xan.

- Quem é esse filho da puta? - Quis saber o homem do balcão.

- Ele é nosso amigo. - Expliquei. - Não é um filho da puta.

- É sim, vocês que ainda não sabem.

Acabamos a primeira cerveja. O homem do balcão pegou mais duas latinhas e nos deu. Perguntei quanto devíamos.

- Nada, é por conta da casa. - Respondeu o Vavá. Olhei para o homem do balcão e ele apenas balançou a mão, como se espalhasse um peido. Saímos do bar.

Passei minha latinha para o Xan beber um gole. Esperei ele terminar e peguei a lata de volta. Ele nunca devolvia o que pegava.

Olhamos em volta. Nada mais estava aberto. Eram quase cinco da manhã. Eu estava muito bêbado. Nessas horas sempre fico cuidadoso. Acho que foi esse sentido que me preservou a vida inteira.

- Vamos dormir nos carros! - Anunciei - Amanhã a gente volta pra casa.

- Tá louco? Se eu não voltar antes das oito meu pai me mata. Ele precisa do carro para ir para a Igreja. - Disse o Vavá.

- Mas você tá muito bêbado.

- É, deixa que eu te levo. - Disse o Xan.

- Você também tá muito bêbado! - Retruquei.

- Eu nunca fico bêbado. - Respondeu. Não o contrariei. Prepotência era o seu sobrenome.

- Então faz o seguinte: cada um pega o seu carro e vai para casa bem devagar. No máximo a quarenta por hora. Ok?

- Ok. - Disse o Vavá.

- Pufs. - Disse o Xan.

Andamos em busca dos carros. Eu não tinha a menor idéia de onde tivesse deixado meu Oggi. Comecei a torcer para que ele funcionasse de primeira, se eu o achasse.

- Cara, tá tudo rodando. - Falei.

- É, tá tudo dando volta. - O Vavá passou o braço nos meus ombros. Abracei o Xan e saímos andando no meio da rua, apoiando-nos um no outro.

Olhamo-nos e quase em uníssono, cantamos:

- Vou dar a volta no mundo, eu vou. Vou ver o mundo girar. - Nessa parte da música cantamos a letra "a" por vários segundos, cada um num tom e numa afinação. - Mas eu só saio daqui, quando o coral negro passar.

- O que é um coral negro? - Perguntei.

- Sei lá! - O Vavá encheu o pulmão. - De novo: Vou dar a volta no mundo, eu vou... - Começou a cantoria novamente. Eu o acompanhei. O Xan resmungou algo sobre sermos imaturos.

Achamos o carro do Vavá. Uma Caravan azul. Eu o botei no banco de motorista.

- Lembre-se: vá devagar e chegue em casa!

- Olha, tenho que te dizer uma coisa.

- Diz.

- Você é meu amigo. - Decifrei a frase, pois as sílabas não estavam muito coordenadas. - As maiores amizades a gente faz com vinte anos. A gente tem vinte anos. Você é meu amigo. - Ele tentava fixar os olhos em mim, mas o estrabismo do álcool o fazia olhar através da minha cabeça. - Gosto de você, cara.

- Eu também, Vavá. - Eu o abracei dentro do carro. - Agora lembre-se: vá devagar e chegue em casa. Se bater, ligue-me em casa. Se não bater, não me ligue.

- Tá, tá.

Ele fechou a porta, ligou o carro, tentou arrancar mas o carro quicou e morreu. Deu a partida novamente e saiu rodando bem lentamente. Andou vinte metros e entrou na pista contrária. Gritamos, pedindo para ele voltar para a pista correta. Ele acenou pela janela, catou a guia da direita e sumiu numa curva.

- Ele vai ficar bem? - Perguntei ao Xan, como se perguntasse a mim mesmo.

- Vai, vai. Esse Vavá só fala merda!

- Como é? Por que?

- Esse papo de amizade... é coisa de bêbado!

- Pô, quando eu bebo também fico assim, emotivo. Eu gosto muito dele. E gosto de você também, Xan. - Sorri e aproximei-me do meu amigo. - Dá cá um abraço.

- Ih, sai fora, bebum. - Ele me empurrou com as mãos, entre divertido e enojado. Achei graça, mas não consegui abraçá-lo.

- Vá devagar, Xan.

- Vá se foder. - O Xan entrou em seu Escort e saiu cantando pneu. Parecia que fez isso apenas para mostrar que não precisava ouvir meu conselho para ir devagar.

Entrei no meu carro e tentei ligá-lo. Ele pegou de primeira. Agradeci aos deuses automobilísticos e sai rodando. Pensei no futuro. Seríamos amigos aos trinta anos? Eu não sabia a resposta, mas esperava que sim, pois embora fôssemos diferentes, éramos amigos.

Eu não sabia a resposta, mas o Vavá sabia. A gente faz as maiores amizades com vinte anos. Proféticas palavras. Aqueles que aceitam ser nossos amigos o serão até o fim. Os que não aceitam, bem, esses apenas ligam o carro e vão embora.

fin

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