A maldição da primavera Entrei de fininho em casa. Notei que alguém tomava banho. Enchi um copo com água gelada e me pendurei na alta janela do banheiro. De surpresa, joguei a água para dentro do boxe do chuveiro. Escutei um gemido abafado quando o líquido atingiu a pessoa que se banhava. Sai rindo às pampas; era uma brincadeira comum naquela época. - Se fedeu, se fedeu. Na sala vi meus pais recepcionando um monte de pessoas. Eram parentes distantes. Uma velharada enrugada e estranha. - Esse é o tio Beto, o tio Humberto, o primo Roberto... - Meu pai começou as apresentações. - Quem é que está tomando banho? - Perguntei. - A sua prima-tia Vera, - respondeu minha mãe. - Ela é bem velhinha. Meu coração tropeçou. Joguei água gelada numa vovó e ainda trocei com ela. Esperei-a sair do banheiro e me preparei para a bronca. Como ela não falou nada, mantive-me calado. Durante o jantar, com toda a trupe à mesa, puxei conversa com a prima-tia. - Acho legal você ser minha prima e ter o nome Vera. - Sorri com todos os dentes. - Posso chamá-la de Primavera. A velha me olhou com cara de tédio. Meu pai interviu. - Tono. - Como é? - Perguntei. - Pode chamá-la também de Tono. - Tono? - Sim. - Vi os olhos de meu pai brilhando. Ele iria soltar algum trocadilho. - Chame-a de Primavera ou Tono. Fiz uma careta divertida. Os trocadilhos eram sempre horríveis. - Parem de bobagens. - Anunciou minha mãe. - Se continuarem com essa besteira de Primavera e Outono, vocês verão. Todos olharam surpresos para ela. Caímos na gargalhada. Minha mãe acomodou os parentes nos quartos e deslocou as crianças para a sala. Ganhei um edredom e um travesseiro para dormir no sofá. No meio da noite, incomodado com os altos roncos da parentada ancestral, resolvi agir. Coloquei uma fita virgem no gravador portátil e me esgueirei para baixo da cama do tio Zeca, o mais roncador. Gravei uns quinze minutos do arrepiante rosnado que ele emitia entre soluços e ásperas tosses. Ainda me arrastando, escondi-me debaixo da cama da Primavera. Na escuridão do quarto tentei apertar os botões play e record para iniciar nova gravação. Enganei-me e apertei apenas o play. Do gravador saiu o assustador ronco do tio Zeca. - Ai meu deus. - Gemeu a prima, acordando num pulo. Tive medo de desligar o gravador. O barulho da tecla me delataria. A gravação durou alguns minutos. A prima continuava gemendo dentro das cobertas. - Ai meu deus, ai meu deus. - A gravação terminou. A prima esperou alguns segundos. - Onde foi? Cadê o ronco? Será que vai me atacar? Ai meu deus. A velha se contorceu na cama. Achei que fosse se levantar e chamar alguém. Apavorei-me com a idéia de ser flagrado. De impulso, imitei o ronco do tio Zeca. - Roar. - Ai meu deus. - Chorou a senhora. - Tá debaixo da cama. Rosnei novamente. A prima Vera ficou imóvel. Continuei roncando em intervalos regulares. Queria mantê-la deitada. Subitamente um cheiro forte de urina empestou o ar. A velha se mijou, pensei. Até achei engraçado, mas logo lembrei que eu estava debaixo da cama. No outro dia minha mãe me encontrou logo cedo saindo do banho. - O que houve? Caiu da cama? - Não. - Resmunguei. - Eu estava debaixo da cama. |
fin |
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