266 dias

 

Era para ser um caso simples: acabar com um estuprador. Coisas assim nem cobro às vezes, faço por prazer ou senso de justiça, não sei. O homem, cabra macho do bairro pobre, apareceu bêbado um dia e currou a filha do vizinho. Dezessete anos, bonitinha, doce e preta como jaboticaba. Resolveu se tornar freira depois do estupro, se diz suja. Aceitei como pagamento apenas a gasolina e a estadia. As balas seriam por minha conta.

Mas vacilei e tomei um tiro na barriga. Fiquei nove meses no estaleiro.

O contratante, líder no bairro, me passou todas as informações e mandou o dinheiro pelo correio. Hospedei-me no único hotel do bairro e visitei as casas dos envolvidos. Mantive-me sempre escondido; vi a bela e sofrida garota, macambúzia pelo pomar da casa, o pai sofrendo pela impotência da covardia, os vizinhos revoltados e organizados em busca de uma solução.

Esgueirei-me com pela rua do estuprador. Um tal Tiago Ortiz, nome chique para um verme. Era um galego de um e noventa, com sardas pelo corpo escurecido de sol, cabelos amarelos e truculência de um bárbaro. Adoraria vê-lo sangrar, os fortões são os que mais choram.

Perambulei pela rua por duas horas até me certificar que o sacana estaria sozinho; a noite desceu e facilitou minha penetração. Corri até a janela e olhei dentro da casa. Ouvi voz no outro ambiente. Pulei para o quarto e engatilhei a pistola. Tive nove meses para concluir que foi esse o meu erro.

Fatiei o caminho até a porta e vi um vulto no corredor. Andei até o umbral e parei para escutar os sons de dentro da cozinha. O homem andava descalço. Apareci na porta e dei de cara com o filho da mãe com um revólver. Disparei e acertei em seu peito. Sei que foi a pequena abaixada da arma de Tiago que fez sua bala me acertar no ventre e não no rosto. O médico, gargalhando, depois me disse que retirou a bala do osso da minha bunda.

O revólver era um velho trinta e dois. Forte para furar mas fraco para atravessar. O pior foi o lugar onde me acertou, logo acima da perna direita, na barriga. Antes mesmo de cair já imaginei o futuro: morreria sangrando ou ficaria uma pá de tempo comendo sopinha e cagando papinha.

Alegrei-me por estar melhor que o galego, com o rombo do meu .45 no peito. Arrastei-me até ele para escrever "estuprador" em sua testa morta com meu canivete suíço. O caixão ficaria fechado ou todos veriam o motivo de sua morte. O emplastro Sabiá que encontrei numa gaveta serviu para estancar o ferimento enquanto eu me recuperava. Senti um calafrio, estava perdendo sangue, corri de volta ao hotel antes de perder as forças. Liguei para minha esposa.

- Querida, fui assaltado e tomei um tiro. - Ela não teve tempo de gritar. Continuei. - Anota um endereço - falei onde estava - e venha me buscar. - Tossi. - Rápido.

- Você tem que ir a um médico. - Ela balbuciou.

- Aqui não. - Tossi mais uma vez. - Venha logo. - Desliguei.

Como eu explicaria para ela que os médicos normais devem relatar às autoridades ferimentos de bala? E o pior: como explicaria que eu não podia ir a um médico normal? Deixei para pensar nisso depois; eu tinha que descansar. Ela demoraria ao menos cinco horas. Com outras cinco para voltarmos e mais umas duas para eu encontrar o meu médico, umas doze horas. Eu sabia que aquele ferimento deveria ter tratamento urgente ou poderia me levar a óbito, mas não tinha escolha. Acendi um baseado do tamanho de uma lanterna e chapei até minha esposa me encontrar. Pensei no sentido da vida; conclui não só que a vida não tem sentido como também que o orgasmo é o momento da origem dessa vida inútil, quando os seres transformam luz em matéria. Por isso é tão prazeroso.

Meu médico retalhou minha barriga e retirou a bala. Eu a prendi num pingente e guardei num relicário.

- Se você quiser faço uma lipo de cortesia. - Ele disse sorrindo dentro da máscara. - Ao menos você vai ficar com uma barriga de tanquinho. - Fez uma pausa para dar ênfase na piada. - A cicatriz das costuras vai se parecer com um tanquinho. Hahaha.

Acordei da operação e vi que minha esposa estava aflita ao meu lado. Achei que estivesse conjeturando teorias sobre o acontecido.

- Quanto os assaltantes roubaram? - Foi a primeira coisa que perguntou. Fingi que não conseguia responder, ainda pensava sobre a desculpa do médico. Ela deve ter achado que meu plano de saúde não cobria aquela região, nunca imaginaria que eu apenas fugia da polícia pelo assassinato do galego.

O primeiro mês passei deitado, com um dreno fincado na minha barriga, sugando um pus nojento e fazendo barulhos engraçados. Só voltei a andar no quarto mês, ainda com a sonda na cintura. Era completamente incômodo. Eu morria de tédio. Meus pés inchavam, eu ficava enjoado, só podia comer mingau e nada de álcool. Num dia me irritei e bebi um pouco. Passei tão mal, cagando e vomitando alternadamente na privada, que resolvi ficar sóbrio até me recuperar. Nem fumar eu conseguia; o cigarro ardia em meus pulmões e a maconha abaixava minhas defesas imunológicas. Mantive-me também careta.

Ao fim do nono mês eu era uma outra pessoa. Sóbrio, calmo, concentrado. Por causa da minha fraqueza assumi maneiras vagarosas e gentis, abaixei meu tom de voz e sempre respirava fundo antes de fazer qualquer coisa. Minha esposa me tratava com esmero, eu me sentia um monge budista. Fiz uns exames e meu médico me considerou curado.

- Ainda bem que recebi adiantado. - Comentou. - Eu não sabia se conseguiria mantê-lo vivo. - Abriu a bocarra num grande sorriso. - Agora tá pronto para outra. Sem ofensas. Hahaha.

Foram 266 dias de recuperação; uma gestação completa. Várias fases se sucederam no processo e cada uma foi dolorosa. Sentia que havia algo dentro de mim, no meu ventre, que não fazia parte dos meus órgãos. Esperei pacientemente até conseguir ver-me livre do incômodo. Estava normal novamente. Sai do hospital e comprei uma passagem de avião para a cidade dos meus pais.

- Vou visitar minha mãe. - Disse. - Agradecerei pelos nove meses que ela me carregou na barriga.

- Por que isso agora? - Havia ciúme na voz da minha esposa.

- Eu nunca a agradeci. - Expliquei. - Vi como é difícil uma gravidez. No fim de tanto sofrimento a pessoa está mudada, fortalecida. - Falei por fim. - Ao menos não terei que criar a minha bala como filho. Minha mãe, ao contrário, teve que criar a mim. Hahaha.

 

fin

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